"Parasitas" foi o surpreendente vencedor da cerimónia dos Óscares.

Após décadas ausente da corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, a vibrante indústria do cinema da Coreia do Sul conseguiu a primeira nomeação e vitória no rebatizado Melhor Filme Internacional.

Mas mal sabia o realizador Bong Joon-ho que, após proclamar estar tão "feliz por ser o primeiro a receber [o prémio] com a nova designação, saúdo e apoio a nova direção que esta mudança simboliza", que "Parasitas" ainda chegaria mais longe: ganhou Melhor Filme, Realização e Argumento Original.

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Confirmando a grande popularidade em Hollywood da comédia negra sobre injustiças sociais, entra na história como o primeiro não falado em inglês a ganhar o Óscar de Melhor Filme em 92 anos dos prémios.

Com um orçamento de 11 milhões de dólares, também é o primeiro vencedor da Palma de Ouro de Cannes a ser consagrado nos Óscares desde "Marty", de 1955.

A transmissão televisiva foi mostrando claramente como o ambiente da sala mudava a cada prémio para o filme, sob fortes aplausos do público no Dolby Theatre.

A dimensão da admiração pelo filme acabou por voltar a ser confirmada mesmo ao cair do pano, quando, num momento caricato, a produção resolveu cortar a palavra à equipa, baixar as luzes e fazer a câmara regressar à apresentadora Jane Fonda.

A cerimónia já ia em quase três horas e meia, mas a sala inteira, incentivada por Tom Hanks, Charlize Theron e Margot Robbie na primeira fila, juntou-se em coro a dizer "Up! Up!", insistindo que os deixassem continuar. E foi isso mesmo que aconteceu.

O momento acabou por simbolizar a "anarquia" em que caiu cerimónia no domingo à noite (madrugada de segunda-feira em Portugal) quando começou a fugir ao "guião" dos produtores e do canal ABC, que para distrair de uma noite sem anfitrião e que pensaram previsível, optaram pelo excesso, enchendo com números musicais e apresentadores a anunciar outros apresentadores no Dolby Theatre, em Los Angeles..

Vários prémios para mulheres

Hildur Guðnadóttir
Hildur Guðnadóttir, vencedora do Óscar de Melhor Banda Sonora

Numa cerimónia que se esforçou claramente, entre declarações dos apresentadores aos discursos de alguns premiados, por promover a diversidade, a vitória de "Parasitas" acaba por se tornar o símbolo inédito a nível racial, social e cultural de inclusão.

Os prémios também foram acusados de marginalizar as mulheres, como denunciou a hashtag #OscarsSoMale [#ÓscaresMuitoMasculinos] nas redes sociais, apesar de uma estatística que passou muito despercebida: elas nunca estiveram mais presentes nas nomeações aos Óscares, sendo 65 dos 209 candidatos.

Para além das categorias de Atriz e Atriz Secundária, várias mulheres estiveram no palco a receber a estatuetas nas mais diversas áreas: Sin-ae Kwak como produtora do Melhor Filme "Parasitas"; Barbara Ling e Nancy Haigh pela Direção Artística de "Era Uma Vez em... Hollywood"; Jacqueline Durran pelo Guarda-Roupa de "Mulherzinhas"; Anne Morgan e Vivian Baker (com Kazu Hiro) pela Caracterização de "Bombshell"; Julia Reichert (com Jeff Reichert e Steven Bognar) pelo Documentário "Uma Fábrica Americana".

Um dos momentos da noite foi a vitória de Hildur Guðnadóttir, que foi aplaudida de pé pelo prémio pela Banda Sonora de "Joker", prémio que lhe foi entregue por três outras mulheres - Brie Larson, Sigourney Weaver e Gal Gadot - no maior momento de "girl power" da cerimónia.

"Para as raparigas, as mulheres, as mães, as filhas, que ouvem a música a mexer dentro de si, por favor falem. Precisamos ouvir as vossas vozes", disse a artista islandesa, a primeira mulher a ganhar nesta categoria.

Sentiu-se ainda muita admiração na sala por Carol Dysinger e Elena Andreicheva no momento em que venceram a categoria de Documentário de Curta-Metragem "Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl)"; e por Karen Rupert Toliver (com Matthew A. Cherry) quando recebeu a estatueta pela Curta-Metragem de Animação "Hair Love".

VEJA O DESFILE DE ESTRELAS NA PASSADEIRA VERMELHA.

Um palmarés repartido

Roger Deakins
Roger Deakins recebe o Óscar de Melhor Fotografia por "1917"

Um olhar quase universal sobre o cada vez maior abismo de classes, vale a pena dizer que "Parasitas" foi um surpreendente vencedor na medida em que muitos desejaram, mas poucos acreditaram que a Academia dos Óscares de Hollywood o fosse escolher como Melhor Filme quando o podia "compensar" com a estatueta de Filme Internacional.

O próprio realizador Bong Joon-ho parecia partilhar desta convicção ao receber esse prémio e proclamar que estava "pronto para se embebedar", o que voltou a repetir quando foi surpreendido ao ouvir o seu nome para Melhor Realização.

Sempre com Sharon Choi, a tradutora de quem nunca se separou na temporada de prémios e também se tornou uma "estrela", espalhou humildade e elogios pela equipa, mas foi ainda mais longe na categoria dos cineastas, destacando especificamente Martin Scorsese ("O Irlandês"), cujos filmes disse ter estudado na escola de cinema e que acabou por ser ele próprio ovacionado de pé, e Quentin Tarantino, por ter colocado os seus filmes nas listas anuais de melhores do ano numa altura em que era pouco conhecido fora da Coreia do Sul.

De facto, "O Irlandês" tornou-se um dos maiores perdedores da história dos Óscares, com 10 nomeações sem qualquer vitória, só ultrapassado por "A Grande Decisão" (1977) e "A Cor Púrpura" (1985), com 11 nomeações cada.

Após ganhar os prémios dos sindicatos dos produtores e realizadores, bem como os BAFTA, "1917", de Sam Mendes, era o grande favorito, mas ficou-se pelas estatuetas em categorias técnicas: Fotografia, Mistura de Som e Efeitos Visuais.

Os outros nomeados para Melhor Filme tiveram mais sorte do que "O Irlandês" na cerimónia que se realizou no domingo à noite no Dolby Theatre, em Los Angeles (madrugada de segunda-feira em Portugal).

"Joker", que liderava com 11 nomeações, ganhou prémios para Melhor Ator (Joaquin Phoenix) e Banda Sonora; "Era Uma Vez em... Hollywood" ganhou Ator Secundário (Brad Pitt) e Direção Artística; "Le Mans '66: O Duelo" recebeu estatuetas pela Montagem e Montagem de Efeitos Sonoros.

Para os restantes, uma estatueta: "Marriage Story" viu distinguida Laura Dern como Atriz Secundária; "Mulherzinhas" recebeu o prémio de Guarda-Roupa; "Jojo Rabbit" foi destacado pelo trabalho do realizador Taika Waititi no Argumento Adaptado.

Fora na corrida a Melhor Filme, destaca-se o Óscar de Melhor Atriz para Renée Zellweger por "Judy" e o de Canção para "(I'm Gonna) Love Me Again", de "Rocketman", a premiar a colaboração artística de 53 anos de Elton John com Bernie Taupin.

No balanço, a derrocada de "O Irlandês" foi também a da Netflix: o estúdio que liderava com 24 nomeações apenas ganhou os prémios de Laura Dern e Melhor Documentário. ("Uma Fábrica Americana").

A abertura da cerimónia não esqueceu as controvérsias

Janelle Monáe e Billy Porter

A cerimónia abriu com Janelle Monáe (e a participação especial de Billy Porter), que cantou uma versão adaptada de "It’s a Beautiful Day in The Neighborhood" (a canção popularizada por Fred Rogers, uma amada personalidade da TV americana, interpretado pelo nomeado Tom Hanks no filme "Um Amigo Extraordinário", inédito em Portugal), com dançarinos negros vestidos como personagens de "Joker", "Chamem-me Dolemite", "Mulherzinhas", "Midsommar" e "Nós".

Durante a apresentação, elogiou "todas as mulheres que realizaram filmes fenomenais" e o "orgulho por estar aqui como uma artista queer negra a contar histórias".

Estava dada a deixa para Steve Martin e Chris Rock pegarem a seguir na falta de diversidade nas nomeações.

Um e outro já foram anfitriões da cerimónia e regressaram para fazer piadas a tudo e todos na abertura do espetáculo, e antes de despedirem a dizer que se divertiram muito a "não ser os anfitriões", foram da ausência de mulheres nomeadas e à falta de diversidade (referenciando a única candidata negra entre os atores, Cynthia Erivo, nomeada para melhor atriz, pelo desempenho em "Harriet"), às primárias democratas no Iowa e à "primeira temporada" de "O Irlandês", numa alusão à longa duração do filme.

Virando-se para Mahershala Ali, vencedor dos Óscares no ano passado, Chris Rock lançou uma provocação: "Tens dois Óscares, sabes o que isso significa quando a Polícia te prende? Nada".

"Os Óscares mudaram nos últimos 92 anos... Em 1929 não havia atores negros nomeados", avançou Martin.

"Em 2020 temos um", ironizou o parceiro.

Tudo como esperado entre os atores

Brad Pitt
Brad Pitt com o Óscar de Melhor Ator Secundário

Não houve surpresas nas categorias de interpretação. O primeiro prémio da noite foi o de Melhor Ator Secundário e ouviu-se o nome de Brad Pitt por "Era uma vez em... Hollywood", que assim junta uma nova estatueta à que recebeu como um dos produtores do vencedor de Melhor Filme "12 Anos Escravo" (2013).

No seu discurso de vitória, Brad Pitt tomou uma posição política ao criticar a recusa do Senado norte-americano de permitir testemunhas no julgamento de impeachment de Donald Trump, mencionando o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton.

"Se Quentin [Tarantino] fizesse um filme sobre isso, os adultos fariam o correto no final", prosseguiu.

No filme, Pitt interpreta o papel de um duplo e no seu discurso recordou que "é altura de dar um pouco de amor aos nossos coordenadores e equipas de duplos" (estes profissionais têm feito campanha há muitos anos para ter a sua própria categoria nos prémios mais importantes do cinema, argumentando que sua contribuição é igual à dos editores e outros profissionais).

Seguiu-se Laura Dern como Atriz Secundária pelo papel da advogada especializada em divórcios em "Marriage Story", que se desfez em elogios ao casal Noah Baumbach e Greta Gerwig (de "Mulherzinhas"), antes de dedicar o prémios aos seus pais, os lendários Bruce Dern e Diane Ladd.

Melhor Ator por "Joker", Joaquin Phoenix usou parte do seu discurso para falar da crise climática e da desigualdade sistémica: "Quer estejamos a falar sobre desigualdade de género ou racismo ou direitos queer, indígenas ou dos animais, estamos a falar da luta contra a injustiça. Estamos a falar da luta conta a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um género ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar e explorar outra com impunidade".

Perto do fim, o ator mudou e referiu-se à sua reputação de ter uma atitude "difícil" e agradeceu a "segunda oportunidade".

"Já fui um sacana na minha vida. Já fui egoísta, às vezes cruel, alguém com quem é difícil de trabalhar. Estou grato por muitos de vocês nessta sala me terem dado uma segunda oportunidade. E penso que é quando estamos no nosso melhor, quando nos apoiamos uns aos outros, não quando nos recriminamos uns aos outros por erros passados, mas quando nos ajudamos a crescer, quando nos educamos, quando nos orientamos na direção da redenção. isso é o melhor da humanidade", declarou.

Após uma longa pausa, terminou com a evocação do irmão, River Phoenix, também um talentoso ator, que morreu precocemente aos 23 anos, em 1993: "Quando ele tinha 17 anos, o meu irmão escreveu esta letra, ele dizia 'Corre para salvar com amor e a paz virá atrás".

Já ao receber o Óscar de Melhor Atriz por "Judy", Renée Zellweger não deixou de recordar que a própria Judy Garland nunca ganhou uma estatueta competitiva (apenas um Óscar "juvenil"), mas que o filme prolonga o seu legado, que ligou ao de outros iconoclastas como Neil Armstrong e Harriet Tubman.

"Os nossos heróis unem-nos. São os melhores entre nós que nos inspiram a encontrar o melhor em nós mesmos", resumiu.

A aposta forte em momentos musicais

Eminem

À falta de anfitrião e a antecipada previsibilidade de vários prémios, os produtores da 92ª cerimónia dos Óscares apostaram forte em momentos musicais.

Houve o já referido número de abertura que deixou o público a aplaudir de pé da versão adaptada de "It’s a Beautiful Day in This Neighborhood" cantada por Janelle Monáe.

Também antecipado antes da cerimónia mas nem por isso menos surpreendente foi a reunião das "Elsas do mundo" de "Frozen II: O Reino do Gelo", com as artistas das versões da Dinamarca, Alemanha, Japão, América Latina, Noruega, Polónia, Rússia, Espanha e Tailândia a juntarem-se à norte-americana Idina Menzel e à norueguesa Aurora na interpretação "internacional" da canção nomeada "Into the Unknown".

Chrissy Metz, mais conhecida pela série "This Is Us", interpretou a também nomeada "I'm Standing with You", do filme "Um Ato de Fé", numa atuação que dedicou à mãe e comoveu a autora da canção, a lendária Diane Warren (com 11 nomeações sem vitória, é a mulher mais nomeada de sempre nos Óscares que nunca ganhou) e, claro, subiram ao palco Cynthia Erivo e Sir Elton John para interpretarem as restantes canções nomeadas.

Para não ficarem atrás, Kristen Wiig e Maya Rudolph também "improvisaram" um momento musical antes de apresentarem as estatuetas para Direção Artística e Guarda-Roupa.

Um dos grandes momentos da cerimónia foi a aparição surpresa de Eminem para interpretar "Lose Yourself", a canção vencedora da estatueta por "8 Mile", um momento que voltou a colocar em pé as estrelas no Dolby Theater.

Nas redes sociais, o artista pediu desculpa pelos 18 anos de atraso: vale a pena recordar que ele faltou à cerimónia de 2003 e por isso a sua canção foi a única daquela noite a não ter atuação ao vivo.

O segmento "In Memoriam", que lembra as figuras que partiram durante o último ano, ficou a cargo de Billie Eilish, que cantou uma versão de "Yesterday", dos Beatles.

O primeiro a aparecer nas imagens foi Kobe Bryant e, ao contrários de anos anteriores, os Óscares revelaram maleabilidade para incluir Kirk Douglas, falecido na quarta-feira, aos 103 anos.

Entre 58 personalidades homenageadas estavam ainda nomes como Rip Torn, Diahann Caroll, Terry Jones, Agnès Varda, Danny Aiello, Stanley Donen, Robert Forster, André Previn, Sylvia Miles, Bibi Andersson, Doris Day, Rutger Hauer, Franco Zeffirelli, Seymour Cassel, Peter Fonda e John Singleton.

"Toy Story 4" vence Óscar da Animação, "Klaus" com talentos portugueses não fez história

"Toy Story 4" ganhou, da Pixar, a ganhar o Óscar de Melhor Longa-Metragem de Animação e assim a Pixar passa a ter dez das 19 estatuetas da categoria, criada em 2001.

O filme "Toy Story 3" vencera o Óscar em 2010, o que o torna o único "franchise" de animação a vencer dois prémios da Academia na mesma categoria.

A sua vitória estava longe de estar assegurada por causa da vitória esmagadora da produção espanhola "Klaus" há duas semanas na 47ª edição dos Annie, os 'Óscares' do cinema de animação.

"Klaus" foi realizado na íntegra nos SPA Studios, em Madrid, com uma equipa que junta pessoas de mais de 20 países, incluindo os irmãos gémeos portugueses Sérgio Martins (supervisor de animação) e Edgar Martins (supervisor na área do argumento).

A história alternativa do Pai Natal foi criada e dirigida pelo espanhol Sergio Pablos (co-criador de " Gru - O Maldisposto"), combinando técnicas tradicionais de desenho 2D com a tecnologia mais avançada.

Trata-se da primeira longa-metragem de animação familiar da Netflix e está disponível naquela plataforma de streaming desde 15 de novembro.

O casal Obama também ajudou a ganhar um Óscar

"Uma Fábrica Americana" ganhou o Oscar de Melhor Documentário, frustrando as ambições de "Democracia em Vertigem", de Petra Costa, de levar para o Brasil um inédito Óscar na categoria.

O trabalho fala do choque entre culturas quando uma fábrica abandonada da General Motors no Ohio é adquirida por uma empresa chinesa.

No discurso de agradecimento, a realizadora Julia Reichert, além de nomear os outros candidatos, fez um apelo ao sindicalismo, destacando a necessidade de os trabalhadores se unirem: "Os trabalhadores enfrentam cada vez mais dificuldades hoje em dia, e acreditamos que tudo melhore, quando os trabalhadores do mundo se unirem".

A distribuição pela Netflix teve o apoio de Barack e Michelle Obama, que acompanharam os realizadores Steven Bognar e Julia Reichert numa espécie de 'making of', que acompanhou o lançamento da obra.

"Parabéns à Julia [Reichert] e Steven [Bognar], os cineastas por detrás de 'American Factory', por contarem uma história tão complexa e comovente sobre as consequências muito humanas da dolorosa mudança económica. Fico feliz por ver duas talentosas e francamente boas pessoas ganharem o Óscar pela primeira produção da Higher Ground", escreveu Barack Omaba.

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