A história era descrita assim: após um homem ser assassinado, o seu espírito fica para trás para avisar a sua amada de um perigo iminente, com a ajuda de uma relutante vidente.

A descrição parecia "meio caminho andado" para o desastre. Não foi: o que chegou aos cinemas norte-americanos a 13 de julho de 1990 foi especial e o sucesso completamente inesperado.

"Sozinho em Casa"? "Pretty Woman"? "Danças com Lobos"? Não. "Ghost - Espírito do Amor" foi o filme mais visto nos cinemas do mundo em 1990. A cassete VHS mais alugada nos clubes de vídeo em 1991. Um dos títulos incontornáveis da década e um dos mais românticos da história do cinema.

Mas se hoje parecem evidentes a química entre Patrick Swayze e Demi Moore ou o "casting" perfeito de Whoopi Goldberg como a falsa vigarista Oda Mae Brown, o clássico resultou de vários "felizes acasos"...

1. Uma história a marcar passo em Hollywood - Bruce Joel Rubin escreveu o primeiro rascunho do argumento de "Ghost" em 1980 e começou a apresentá-lo aos estúdios em 1984. Andou a marcar passo porque "ninguém quer fazer filmes sobre fantasmas.

2. Uma escolha invulgar para realizador- Jerry Zucker era um dos membros do "ZAZ", formado por ele, Jim Abrahams e o irmão David Zucker, conhecidos pelas comédias malucas "O Aeroplano", "Ultra Secreto", "Por Favor, Matem a Minha Mulher" e a série "Police Squad!", que apresentou o indescritível Detetive Frank Drebin (Leslie Nielsen), o futuro herói de "Aonde É Que Pára a Polícia". Após a luta para finalmente ver o seu argumento receber luz verde para avançar em Hollywood, Bruce Joel Rubin ficou em choque ao saber que tinha sido ele o escolhido como realizador. "Queria Milos Forman ou Stanley Kubrick. Chorei quando me disseram que o tipo que fez 'O Aeroplano' ia realizar 'Ghost'". Mas os dois deram-se bem e fizeram 19 rascunhos do argumento juntos, com Zucker a dar-lhe mais estrutura, ritmo e... humor.

3. Ninguém queria ser um fantasma - O papel de Sam Wheat foi recusado por quase tudo o que era ator importante ou em ascensão em Hollywood porque interpretar um fantasma era uma ideia "pateta". A lista de rejeição inclui Tom Cruise, Harrison Ford, Mel Gibson, Tom Hanks, Kevin Costner, Nicolas Cage, Alec Baldwin, Mickey Rourke, John Travolta, Kevin Bacon. Até Bruce Willis, que já era casado naquela altura com Demi Moore: achou que o filme não ia funcionar com um protagonista já morto (uma ironia, considerando o filme que decidiu fazer uns anos mais tarde).

4. Patrick Swayze? Nem pensar! - Bruce Joel Rubin sugeriu Patrick Swayze, fresco do sucesso de "Dança Comigo", e como Jerry Zucker queria vê-lo um filme, os dois foram ver "Profissão: Duro". O realizador saiu da sala, virou-se para o argumentista e disse: "Só por cima do meu cadáver". Mas o ator queria "Ghost" precisamente para se afastar da imagem dos filmes de ação e foi persistente. Embora pensasse que fosse falhar, Zucker acabou por aceitar fazer-lhe um teste e para sua surpresa, o resultado foi convincente.

5. Uma outra Molly Jensen - Ao contrário do papel de Sam Wheat, não circulam muitos nomes de atrizes que estiveram na corrida para ser a "amada em perigo". Segundo revela Bruce Joel Rubin, Nicole Kidman fez um bom teste, mas não conseguiu porque naquela altura, pré-"Dias de Tempestade" e pré-Tom Cruise", era uma atriz quase desconhecida.

6. A arma secreta de Demi Moore - Já era reconhecida em Hollywood graças ao sucesso de "O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas" e "Lembras-te da Última Noite?". Mas também tinha um talento especial que a fez ganhar o papel de Molly, evidente para qualquer fã de "Ghost": conseguia chorar assim que fosse preciso. E não só: conhecia escolher qual dos olhos para chorar.

7. Uma estrela da sorte - Os produtores não estavam completamente convencidos que Whoopi Goldberg fosse a pessoa indicada para ser a vidente Oda Mae Brown. E ela, já um nome popular em Hollywood, também não conseguia encaixar o filme na agenda. O papel foi oferecido a outra atriz, mas Patrick Swayze disse que não fazia o filme sem ela, embora os dois nunca se tivessem conhecido.

8. Tony Goldwyn precisou ser convencido pela mulher - Muito antes de "Scandal", e apesar do "pedigree" (era neto de Samuel Goldwyn, um dos lendários donos de estúdios em Hollywood), conseguiu o papel do melhor amigo de Sam e mau da fita com um incentivo da esposa, responsável pela direção artística do filme, que estava sempre a dizer-lhe que devia pressionar o agente para lhe conseguir um teste porque o papel ainda não tinha sido atribuído. A cassete, recordou Tony Goldwyn em 2014, foi vista "por um acaso" e chamou a atenção. Quando lhe disseram que parecia "demasiado simpático", o ator convenceu com o argumento de que Carl Bruner precisava ter tanto de simpático como de vilão para ser credível.

9. Corte de cabelo - Demi Moore fez o teste com os seus habituais cabelos compridos, mas cortou super curto sem converar com o realizador, que ficou inicialmente muito zangado, mas acabou por reconhecer que o "look" que se tornou icónico era perfeito para Molly.

10. Sucesso garantido? Nem por isso... - Durante uma apresentação de "Ghost" em 2013, Demi Moore contou ao público qual foi a sua reação inicial ao projeto: "É uma história de amor e é um tipo - um tipo morto - a tentar salvar a sua esposa, e tem uma parte de comédia, mas realmente é uma história de amor. E pensei, 'Isto é de facto uma receita para o desastre'. Ou vai ser uma coisa especial, realmente espantosa, ou ser um desastre completo".

11. Uma nova vida para "Unchained Melody" - A esgotar os cinemas no verão de 1990, uma versão de "Unchained Melody" dos The Righteous Brothers de 1965 que aparecia no filme e na no CD da banda sonora tornou-se uma sensação, levando Bill Medley e Bobby Hatfield a gravar uma nova versão que foi um sucesso gigantesco que chegou a número um nos tops. Curiosamente, outro sucesso a solo de Bill Medley, "(I’ve Had) The Time of My Life" fez parte de "Dirty Dancing" três anos antes.

12. Uma cena muito parodiada - A sensual cena em que Sam e Molly fazem olaria causou um impacto tal que entrou na cultura popular e logo no ano a seguir já estava a ser parodiada... pelo irmão de Jerry Zucker (David) em "Aonde é Que Pára a Polícia 2 1/2: O Cheiro do Medo". Já agora, não era suposto o pote ter-se desmoronado, mas os atores continuaram na mesma...

13. "Ghost" relançou um género - Após "Um Amor Inevitável", Meg Ryan tornou-se a rainha das comédias românticas, mas o rumo da carreira poderia ter sido muito diferente se não fosse o impacto nas bilheteiras de Ghost" e, algumas meses mais tarde, "Pretty Woman". Os sucessos revitalizaram o género numa Hollywood que já estava a apostar nos "blockbusters" de ação" e beneficiou "O Guarda-Costas", "Jerry Maguire" e "Titanic", além de, claro, quase tudo o que fez Meg Ryan nos anos 1990 ("Sintonia do Amor", "Quando Um Homem Ama Uma Mulher", "French Kiss"...);

14. A atriz mais bem paga de Hollywood - Provavelmente ninguém tirou tantos benefícios de "Ghost" do que Demi Moore, que passou de atriz conhecida a estrela a sério. Aproveitou o novo poder para a tripla de sucessos "Uma Questão de Honra", "Proposta Indecente" e "Revelação". Em 1995, pagaram-lhe uns nunca vistos 12,5 milhões de dólares para ser a protagonista de "Striptease", tornando-se a atriz com bem paga da indústria. A publicidade muito puxou pela falta de roupa, mas o filme foi um fracasso e quando o mesmo aconteceu com "G.I. Jane - Até ao Limite" dois anos depois, decidiu fazer uma pausa na carreira. Regressou a sério a Hollywood como vilã em "Os Anjos de Charlie: Potência Máxima", mas também não correu bem e a partir daí trocou Hollywoodpor Idaho e as presenças tornaram-se esporádicas e com resultados pouco famosos.

15. Um Óscar com "alta pedrada" - A carreira no cinema caiu a pique a partir de 1996, principalmente após "contracenar" com um dinossauro em "T-Rex", mas mesmo quem não gosta de "Ghost" reconhece que foi um caso muito feliz de identificação entre atriz e personagem o que aconteceu com Whoopi Goldberg e Oda Mae Brown. O impacto abriu caminho para mais alguns sucessos, principalmente "Do Cabaré para o Convento"... e um Óscar de Melhor Atriz Secundária. Em 2011, revelou que tinha fumado haxixe pare relaxar antes da cerimónia, o que dá ao discurso todo um sub contexto mais interessante. Até mãe lhe telefonou a seguir a dizer que tinha percebido que estava pedrada tal era o brilho nos olhos. Vale a pena rever o vídeo.

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