Um realizador precisa de coragem para fazer uma comédia sobre um miúdo nazi de 10 anos e o seu amigo imaginário Adolf Hitler e ainda mais ousadia para interpretar o próprio ditador, com aquele bigode e suástica.

Mas Taika Waititi afirma que estava determinado a usar o humor para combater o fanatismo e o fascismo no filme "Jojo Rabbit", bem cotado para os Óscares e que estreia esta semana nos Estados Unidos, num momento em que, assegura, há "muitos nazis por perto".

"Passaram 80 anos desde que Charlie Chaplin fez 'O Grande Ditador'. Então, não diria que é muito cedo", declarou o cineasta neozelandês, descendente de judeus e maoris, numa conferencia de imprensa em Beverly Hills.

"Segue a tradição de algumas pessoas muito inteligentes que tinham algo a dizer e usavam a comédia, que, na minha opinião, é uma das ferramentas mais poderosas contra o fanatismo e contra regimes e ditadores", completou o cineasta de "Thor: Ragnarok".

O filme, protagonizado por Scarlett Johansson, retrata a Segunda Guerra Mundial através dos olhos de um miúdo alemão (Roman Griffin Davis) que foi doutrinado pela juventude nazi e fica consternado ao descobrir uma menina judia a viver no sótão da sua casa.

O jovem Jojo, que nunca tinha encontrado um judeu, encara-a inicialmente com temor e repugnância, mas ao tomar conhecimento que a sua mãe (Johansson) lhe deu abrigo em segredo, correndo um grande risco, vê-se obrigado a passar algum tempo com ela.

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Classificado como uma "sátira anti-ódio", "Jojo Rabbit" começou a ser imaginado em 2011, quando a mãe de Waititi recomendou o livro "Caging Skies", que acabou por ser a inspiração.

O lançamento - que em Portugal está previsto para 6 de fevereiro de 2020 - acontece numa altura em que déspotas e populistas de extrema-direita estão em ascensão em todo o mundo, salienta o realizador.

"Naquela época, não havia tantos nazis", afirmou, numa referência ao momento em que começou a trabalhar no projeto.

"Agora, parece estranhamente relevante, mais relevante", enfatiza.

"Chega-se a 2019, quando o filme estreia, com um aumento dos neonazis e de grupos de ódio. Intolerância e ódio avançam, assim como as pessoas que promovem o ódio e a intolerância", completou.

Audacioso

"Jojo Rabbit" poderia emular "A Vida é Bela", de 1997, outro filme de temática nazi polarizador que venceu três estatuetas dos Óscares.

Apesar das críticas mornas, o filme de Waititi entrou definitivamente no radar após a vitória no conceituado Festival de Toronto.

O prémio, decidido pelo público, é considerado um indicador confiável para a distinção mais importante do cinema, como aconteceu com "Green Book", "O Discurso do Rei" e "Quem Quer Ser Bilionário?".

As pessoas que assistiram ao filme no festival ignoraram as preocupações dos críticos sobre a estética caricatural e "hipster" da obra, e a controversa representação de Waititi de um Hitler idiota e infantil, produto da imaginação de um garoto que sofreu lavagem cerebral.

Waititi disse que, no início, não queria interpretar Hitler, que pressiona Jojo a denunciar a presença da jovem judia, mas que cedeu ao pedido da Fox Searchlight, estúdio que comprou os direitos de exibição do filme.

"A principal palavra para descrever este papel é vergonha", afirmou o cineasta.

"Na maior parte do tempo, fiquei embaraçado por ter que me vestir daquela forma", reforçou.

Mas a decisão valeu a pena, declarou Waititi, porque ter uma estrela de Hollywood no papel desviaria a atenção da verdadeira preocupação do filme: o impacto da guerra e do fascismo nas mentes jovens e inocentes.

Scarlett Johansson entrou no projeto depois de Chris Hemsworth, o seu colega de elenco em "Vingadores", mostrar o argumento de Waititi.

"Era cheio de extravagâncias e aspetos infantis, mas também era realmente comovente e forte", disse a atriz.

Stephen Merchant, cocriador da série "The Office" e que interpreta um capitão sinistro da Gestapo, disse que pareceu "audacioso" fazer este filme no momento em que o "cinema convencional talvez tenha ficado um pouco mais conservador ou optado por correr menos risco".

"Isto é algo que deve ser aplaudido", destacou.

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