Apesar da polémica à volta da sua seleção na competição, Roman Polanski estreia esta sexta-feira no Festival de Veneza o seu filme sobre o caso Dreyfus, "J'Accuse", no qual vê um paralelo com sua situação, pois considera-se "assediado".

O trabalho do realizador franco-polaco de 86 anos compete com 21 filmes pelo Leão de Ouro. Foi exibido esta manhã à imprensa, mas as reações estão embargadas até à sessão de gala esta noite. O cineasta estará ausente, informou à AFP fonte da produção do filme.

"J'Accuse" conta o caso Dreyfus do ponto de vista do tenente-coronel Georges Picquart, interpretado por Jean Dujardin (vencedor do Óscar por "O Artista"), chefe dos serviços secretos e figura-chave no desfecho.

Ele divulgou as provas que permitiram inocentar o capitão Dreyfus, francês de origem alsaciana e de confissão judaica acusado de traição, pondo fim a esse grande escândalo da Terceira República na França, que durou doze anos (1894-1906).

Roman Polanski, ainda às contas com ajustiça americana pela violação em 1977 de uma adolescente, disse em várias ocasiões que via ecos da sua própria história neste caso.

Palavras que reitera no dossier de imprensa do filme, divulgado online pelo Festival de Veneza.

"Fazer um filme como este ajudou-me muito. Na história, encontro coisas em que me reconheço, vejo a mesma determinação de negar os factos e de me condenar por coisas que não fiz", disse na entrevista ao escritor Pascal Bruckner disponível no dossier.

"A maioria das pessoas que me assedia não me conhece e não sabe nada sobre o caso", acrescenta.

"Histórias absurdas"

Questionado sobre a "perseguição" que ele sofreu desde o assassinato da sua esposa Sharon Tate, em 1969, o cineasta enfatiza que "é como uma bola de neve".

"Cada estação adiciona uma nova camada", acrescenta, com "histórias absurdas contadas por mulheres que nunca vi na minha vida, que me acusam de coisas que supostamente aconteceram há mais de meio século".

Três novas mulheres apresentaram acusações contra ele nos últimos anos. Em 2010, a atriz britânica Charlotte Lewis o acusou de "abusar sexualmente" dela aos 16 anos em 1983.

Uma segunda mulher acusou-o de agressão sexual em 2017, quando ela tinha 16 anos em 1973, e uma terceira apresentou uma queixa em 2017 por violação, por factos que datam de 1972, quando ela tinha 15 anos.

Acusações "infundadas", segundo o seu advogado.

A presença de "J'Accuse" na disputa pelo Leão de Ouro provocou fortes críticas nas últimas semanas por parte de feministas, incluindo a fundadora do grupo Women and Hollywood, Melissa Silverstein, para quem o Festival "é completamente surdo aos problemas relacionados ao #MeToo".

A própria presidente do júri, Lucrecia Martel, afirmou na quarta-feira estar "muito envergonhada" com a seleção do filme, e indicou que "não compareceria" à exibição oficial.

Mais tarde, amenizou as suas palavras, indicando que "não se opunha" à presença dele na competição e não tinha "preconceitos" sobre o trabalho.

O realizador atrai há vários anos a ira das feministas, que não aceitam que os seus filmes continuem a ser exibidos em festivais e que continue a ser homenageado.

Na França, feministas protestaram em 2017 contra uma retrospectiva dos seus filmes na Cinémathèque, o que o levou a desistir de presidir à cerimónia dos prémios César no mesmo ano.

Nos Estados Unidos, o diretor processou a Academia dos Óscares, que decidiu expulsá-lo.

Roman Polanski declarou-se culpado em 1977 por sexo ilegal com Samantha Geimer, então com 13 anos de idade.

Fugiu dos Estados Unidos após a mudança na posição do juiz, que provavelmente resultaria numa sentença mais pesada do que o previsto. Os promotores dos EUA ainda tentam trazê-lo ao país para fazê-lo cumprir a sentença.

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