Rutger Hauer morreu no sábado após uma curta doença e o funeral realizou-se esta quarta-feira, confirmou o seu agente. O ator holandês tinha 75 anos.

O papel que o imortalizou no cinema é o de Roy Batty, a violento replicante com alma em "Blade Runner - Perigo Iminente" (1982)

Destacou-se como poucos no cinema pelo olhar intenso acompanhado de silêncio, violência e crueldade, mas para além da sua eletrizante interpretação no filme de culto de ficção científica de Ridley Scott, ficou como um dos seus melhores momentos como ator o célebre discurso "lágrimas na chuva", no confronto final com Rick Deckard (Harrison Ford), reescrito por si e apresentado ao realizador no dia de rodagem.

A carreira de Rutger Hauer começou pelo teatro experimental na adolescência, até entrar em 1969 para a série de TV "Floris".

O rumo mudou quando o cineasta Paul Verhoeven lhe deu o papel principal no filme "Delícias Turcas" (1973), um grande sucesso de bilheteira.

Dois anos depois, Hauer foi convidado para entrar no filme americano "Os Caminhos da Liberdade" num papel que, apesar de secundário, tornou-o conhecido em Hollywood.

No entanto, regressou à Europa e reencontrou Paul Verhoeven no célebre "O Soldado da Rainha" (1977), sobre um grupo de estudantes na Holanda que segue caminhos diferentes durante a ocupação nazi do país na Segunda Guerra Mundial.

Ainda com Verhoeven faz "Viver Sem Amanhã" (1980) antes de regressar ao cinema americano ao lado de Sylvester Stallone em "Os Falcões da Noite" (1981).

Apesar de "Blade Runner" ter sido um notório fracasso comercial aquando da estreia comercial em 1982, o papel do replicante cruel mas sonhador lançou definitivamente a sua carreira nos EUA, principalmente em filmes de ação e aventura.

É como estrela que surge já em "O Fim-de-Semana de Osterman" (1983), mais notório por ser o último filme de Sam Peckinpah, mas o grande trabalho após "Blade Runner" foi o reencontro com o compatriota Paul Verhoeven no seu primeiro filme americano, o brutal "Amor e Sangue" (1985).

Aquim, um intenso Rutger Hauer destacava-se como o líder de um grupo de mercenários que, na Idade Média, rapta a noiva virgem (Jennifer Jason Leigh) do filho de um nobre como vingança por este não lhes pagar o que prometeu.

No mesmo ano e ainda na mesma época histórica, mas bem mais benigno, surgia ao lado de Michelle Pfeiffer e Matthew Broderick em "A Mulher Falcão", de Richard Donner.

Este filme no domínio do fantástico, que passou despercebida na época mas tem vindo a ganhar reconhecimento com o passar dos anos, andava à volta de dois amantes condenados a nunca se encontrarem enquanto humanos por causa de um feitiço: ele era um lobo durante a noite, ela um falcão durante o dia.

Em 1986, faz outro filme que se tornou rapidamente objeto de culto: "Terror na Auto-Estrada".

Violento e cruel como nos seus melhores trabalhos, ele era aqui um assassino de origem e motivações desconhecidas a quem um jovem (C. Thomas Howell) oferecia boleia sem imaginar que estava a deixar entrar o terror e a morte no seu carro.

Em 1987, tem uma das suas interpretações mais admiradas, mas no pequeno ecrã, no telefilme "Fuga de Sobibor", baseado numa história verídica, como um dos organizadores e o líder da maior fuga bem sucedida de judeus de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

A seguir, faz um raro regresso à Europa para aquele que é visto como o seu melhor triunfo como ator no cinema, o italiano "A Lenda do Santo Bebedor" (1988), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, uma parábola sobre a redenção e o destino, sobre o sacrifício e a (má) sorte em que é um vagabundo alcoólico a quem emprestam 200 dólares na condição de os devolver a uma igreja.

Esse premiado filme não ultrapassa o circuito alternativo nas salas de cinema e regressa aos EUA e aos papéis violentos e cruéis em filmes de rotina como "Fúria Cega (1989) ou "Gladiadores do Século 23" (1989).

A carreira decai rapidamente quando começa a perder o aspecto vigoroso, fazendo-o voltar aos papéis secundários na década de 90.

Existem alguns momentos, como o nobre vampiro Lothos na versão cinematográfica de "Buffy, Caçadora de Vampiros" (1992) ou o do oficial nazi dividido no telefilme "Fatherland" (1994), que se passava num mundo em que a Alemanha ganhou a Segunda Guerra Mundial, mas esta é a fase dos trabalhos de rotina nos dois lados do oceano, em que entra em muitos projetos no mesmo ano.

Um deles chegou a trazê-lo a Portugal para o filme de ficção científica "RPG" (2013), realizado por David Rebordão e Tino Navarro.

Entre muitos trabalhos de terror no meio de vampiros, onde até surgem "Dracula 3D", de Dario Argento (2012), e episódios da série "Sangue Fresco" (2013-14), alguns realizadores, marcados pelos clássicos que protagonizou, chamaram-no para pequenos papéis em filmes de prestígio: Christopher Nolan para "Batman - O Início" (2005) e Robert Rodriguez e Frank Miller para "Sin City: Cidade do Pecado" (2005).

Destacam-se ainda dois filmes neste período final a recordar os seus melhores tempos: o delirante "Hobo with a Shotgun" (2011), novamente pelos territórios da violência mas em comédia negra, inspirado por um dos "trailers" falsos de "Grindhouse", de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez; e o drama "O Moinho e a Cruz" (2011), do polaco Lech Majewski, que retratava a história de 12 das mais de 500 personagens do quadro "Subida ao Calvário", com Rutger Hauer a representar o pintor Peter Bruegel.

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