Nos últimos 12 meses, Greta Gerwig destacou-se com o aclamado "Lady Bird", enquanto Patty Jenkins bateu recordes de bilheteira com a superprodução "Mulher-Maravilha".

O drama racial de Dee Rees na Netflix, "Mudbound", obteve 97% de aprovação no site de críticas Rotten Tomatoes, e Kathryn Bigelow foi notícia com o drama criminal "Detroit".

Quando se acrescenta a esta lista Sofia Coppola, Amma Asante e Valerie Faris, todas criadoras de filmes muito elogiados, o contraste com as nomeações para melhor realizador nos Globos de Ouro torna-se ainda mais evidente, uma vez que a seleção só conta com homens de meia idade.

Espera-se que Guillermo del Toro ganhe por "A Forma da Água", superando Martin McDonagh ("Três Cartazes à Beira da Estrada"), Christopher Nolan ("Dunkirk"), Ridley Scott ("Todo o Dinheiro do Mundo") e Steven Spielberg ("The Post").

Um levantamento da AFP mostra que só cinco mulheres foram selecionadas para competir na categoria de melhor realizador na história dos Globos de Ouro, que começou em 1944.

Barbra Streisand, a única vencedora por "Yentl" (1983), e Bigelow foram nomeadas duas vezes. Sofia Coppola, Jane Campion e Ava Duvernay completam a curta lista.

"Não houve mudanças"

"O problema das diretoras em Hollywood gerou muito debate nos últimos anos", disse Stacy Smith, professora da Universidade do Sul da Califórnia (USC). "A evidência revela que, apesar de receberem maior atenção, não houve mudanças para as mulheres que estão atrás da câmara".

A Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), a entidade de 90 membros que concede anualmente os Globos de Ouro, não quis comentar o assunto, mas fontes familiarizadas com o tema indicaram que seria injusto culpar exclusivamente essa organização por um problema que diz respeito a toda a indústria.

Os Óscares são um exemplo disso, com seu recorde ainda pior de apenas quatro candidatas na categoria de realização desde 1927, incluindo Bigelow, que ganhou em 2009 com "Estado de Guerra".

Kathryn Bigelow e o Óscar

Uma análise publicada na passada quinta-feira pela USC mostra que a igualdade de género é praticamente inexistente na indústria cinematográfica.

O estudo, chamado "Inclusão na cadeira do realizador?", combina dados sobre género, raça e idade de 1223 cineastas que trabalharam nos 1.100 filmes de maior arrecadação lançados entre 2007 e 2017.

Apenas 4% eram mulheres, e entre elas só havia quatro negras, duas asiáticas e uma latina.

Cerca de metade dos homens na lista trabalharam noutro filme sucesso de bilheteria durante essa década, enquanto mais de 80% das mulheres não foram contratadas para nenhum outro grande projeto cinematográfico.

O estudo da USC é atualizado todos os anos e só oito mulheres foram adicionadas em 2017, um sinal de que se avançou pouco, segundo Smith.

Mudar a forma de pensar

O estudo aponta a Warner Bros. como o estúdio que lançou a maior quantidade de filmes realizados por mulheres, mas o número continua a ser baixo: apenas 12 em 11 anos.

Enquanto isso, menos de um quinto dos membros da direção das sete principais empresas de entretenimento são mulheres, e os homens executivos de cinema ultrapassam as mulheres numa proporção de mais de dois para cada uma.

JOGO DA ALTA-RODA

Jessica Chastain, duas vezes nomeada para os Óscares e ativista pela igualdade de género, indica que o sexismo institucional, longe de ser só um problema de Hollywood, é fruto de um sistema patriarcal que inclui Wall Street e os meios de comunicação.

A californiana de 40 anos disse à AFP numa entrevista recente que se apercebeu da discriminação antes de iniciar a carreira, enquanto estudava na Escola Juilliard, em Nova Iorque.

"Percebi muito cedo que cada turma era dois terços masculina e um terço feminina e perguntei a um professor: 'Porque é que não é 50/50?'", disse Chastain, nomeada para a melhor atriz dramática por "Jogo da Alta Roda". "E ele disse: 'Bem, há mais papéis para homens do que para mulheres'".

"Como vamos mudar se não se muda esta forma de pensar?", questiona a atriz.