É já uma tradição anual do SAPO Mag: cinco perguntas, sempre iguais, para um painel de especialistas. Quem vai ser o grande vencedor e quem são os inevitáveis ausentes, sem esquecer a discussão em redor das paixões e ódios gerados por "Roma" ou de todas as incertezas que rodeiam a cerimónia deste ano.

Os nossos convidados, todos ligados ao cinema pela profissão, não tiveram papas na língua. Desde o fenoméno de “Roma”, à entrada fulgurante da Netflix na corrida, passando pela aparente desorientação da Academia na cerimónia deste ano, pouco ficou por discutir.

Mário Augusto, Rui Pedro Tendinha, Vítor Moura e Maria João Rosa, alguns dos jornalistas de cinema mais conhecidos do pequeno ecrã, têm sido testemunhas das mudanças operadas em Hollywood ano após ano, e o multifacetado Filipe Melo (realizador, autor de BD, músico – co-produziu recentemente o álbum “Do Avesso”, de António Zambujo), devorador compulsivo de filmes, recorda no final aquilo que mais interessa nisto dos Óscares.

Quem vai ser o grande vencedor dos Óscares?

Mário Augusto: Julgo que estão reunidas as condições para este ser o ano de “Roma”. É um filme muito bonito, bem feito e com paixão. O Alfonso Cuarón (realizador, argumentista, produtor, diretor de fotografia) faz do filme uma celebração da memória. O facto do filme ter sido produzido para a Netflix e poder ganhar o Óscar vai representar uma mudança do paradigma e produção e distribuição das produções de Hollywood.

Maria João Rosa: Este é o ano dos Óscares da incerteza. Não só porque a Academia anda há semanas a dar o dito por não dito (relativamente ao anfitrião da cerimónia, às categorias de visibilidade reduzida e ao Óscar de Filme Popular), mas sobretudo porque há uma ausência de claros favoritos na maior parte das categorias, como há muito tempo não se via. Pode não haver um grande vencedor este ano e haver muitos vencedores pequenos. Se tiver de adivinhar, penso que vamos ter empate entre "Roma" e "Green Book", 3 a 3 (o primeiro arrecada os Óscares de Realização, Direção de Fotografia e Filme Estrangeiro; o segundo leva os de Melhor Filme, Ator Secundário e Argumento Original). Se formos a penáltis, ganha o México. E "Roma" faz duplamente história, como o primeiro filme de língua estrangeira e também o primeiro filme da Netflix a ganhar um Óscar de Melhor Filme. Mas prognósticos, só no fim do jogo.

Rui Pedro Tendinha: “Roma”, mesmo que não vença o Melhor Filme. É a primeira vez que um filme de arte e ensaio sai catapultado desta maneira para o imaginário dos Óscares. Milagre mexicano? Prova de força da Neflix? Não, apenas a pura qualidade de um filme com cinema em estado de graça.

Vítor Moura: Para não variar, é difícil prever. O facto de “Roma” e “A Favorita” terem dez nomeações cada é só uma vantagem numérica, à partida. O mais provável é que a Academia reparta os Óscares das categorias principais pelos títulos mais fortes. Suspeito que, para os críticos da Netflix, será uma noite para esquecer com a consagração do drama de Alfonso Cuáron, nomeadamente com os Óscares de Melhor Realizador, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e até Melhor Argumento Original.

Filipe Melo: Atenção! Não vi tudo. Falta-me o “Vice”, só vou ver este domingo. Vou dizer o que eu gostava que ganhasse - é "A Favorita". Foi, para mim, o que me pareceu mais forte. A história e as personagens perseguiram-me por uns dias. Este ano houve filmes muito diferentes, e gostei de todos, mas este foi o que me bateu mais.

VEJA A LISTA COMPLETA DE NOMEADOS

Qual o Óscar que querias mesmo ver entregue este ano?

Mário Augusto: Sem dúvida o de Melhor Realizador ao Alfonso Cuarón. Mas estou a torcer (sabendo que tal não vai acontecer) pelo Viggo Mortensen (por “Green Book”) que adoro como ator.

Maria João Rosa: Sem dúvida, o Óscar de Melhor Atriz para Olivia Colman. "A Favorita" é a minha favorita nesta categoria, mas não me parece que seja capaz de travar o embalo com que Glenn Close anda a triunfar nesta temporada de prémios. A Academia vai querer compensá-la por nunca ter ganho um Óscar e parece que à sétima é de vez. Mas se houvesse justiça e não ajustes de contas, a rainha da noite seria Olivia Colman.

Rui Pedro Tendinha: Willem Dafoe. É um dos maiores atores vivos e o ano passado no “The Florida Project” já tinha sido roubado. O seu Van Gogh em “À Porta da Eternidade” é uma coisa do outro mundo...

Vítor Moura: “Green Book” é a minha aposta para o Óscar de Melhor Filme. Tem todos os méritos que um drama baseado numa história real deve ter: foi bem escrito, bem realizado e magnificamente interpretado por Viggo Mortensen e Mahersala Ali. A mensagem anti-racista continua a ser relevante na América dos dias de hoje, o que está longe de ser um pormenor como se viu nos Globos de Ouro. O prémio do Sindicato dos Produtores normalmente coincide com a escolha da Academia de Hollywood. Se a tradição ainda é o que era… o Óscar está (justamente) garantido.

Filipe Melo: Melhor Argumento Original para "First Reformed" ["No Coração da Escuridão"].

Que filme não está nomeado e gostavas que estivesse?

Mário Augusto: Merecia estar na lista o Robert Redford por ter feito o que diz ser o seu derradeiro filme, “O Cavalheiro com Arma”. Olhando para a lista acho que também falta lá um dos melhores filmes do ano, “Um Lugar Silencioso”.

Maria João Rosa: Penso que a ausência de "O Primeiro Homem na Lua" é flagrante. Nunca seria um favorito este ano, mas devia ter o reconhecimento que só uma nomeação já confere. Pelo menos, nas categorias de realização (Damien Chazelle voltou a ser um virtuoso, sem repetir a fórmula, o que já vai sendo raro em Hollywood), de direção de fotografia (só a sequência na Lua merecia um prémio), de Melhor Atriz Secundária para Claire Foy e de Banda Sonora (para mim, a melhor do ano) para Justin Hurwitz. E há muitos outros filmes ausentes, mas destaco este.

Rui Pedro Tendinha: Queria muito que o Boots Riley e o seu “Sorry to Bother You” ganhassem. Não está sequer nomeado. A revolução na mentalidade da Academia ainda não é este ano...

Vítor Moura: É longa a lista de filmes incontornáveis que a Academia de Hollywood ignorou de forma estrondosa na história dos Óscares. Este ano não foi exceção e, entre os muitos exemplos possíveis, destaco “Viúvas”, não só pela consistência como "thriller" dramático mas também pela realização empolgante de Steve McQueen (o mesmo de “12 Anos Escravo”) e pela interpretação da sempre impecável Viola Davis, já três vezes nomeada pela Academia de Hollywood (só ganhou como Atriz Secundária em 2017 com “Vedações”).

Filipe Melo: Vou dizer mais do que um, que me pareceram muito bons e que seriam óptimas nomeações (embora de diferentes categorias): “O Cavalheiro com Arma”, “Nunca Estiveste Aqui”, “O Culpado”, “Deadpool 2”... uff. vários.

“Roma”: é possível um filme da Netflix e não falado em inglês ganhar o Óscar de Melhor Filme? E merece?

Mário Augusto: Pois... como dizia atrás, creio que sim. Essa vitória pode representar uma mudança radical de paradigma: hoje não se pode falar de cinema de Hollywood – a Hollywood de hoje é a dos super-heróis, das séries, porque o grande cinema de hoje é produzido e realizado nos quatro cantos do mundos: Hungria, Nova Zelândia, Inglaterra... Hollywood só lhe põe o carimbo. Ganhando “Roma”, muita coisa acelera na mudança da forma como hoje vemos o cinema como indústria. Mas para mim, ele merece ganhar… o facto de ser uma produção mexicana tem algum peso na escolha, até por razões políticas.

Maria João Rosa: É possível e merece, sem dúvida. Não sei se vai acontecer. Apesar do sangue novo que invadiu a Academia nos últimos anos, com novos membros mais jovens e mais diversificados, ainda resta um núcleo duro muito conservador e resistente aos ventos de mudança. Há quem não queira dar já esta vitória à Netflix; há quem não consiga imaginar um filme mexicano, falado em castelhano, a ganhar o Óscar de Melhor Filme (por mais que queiram dar uma estalada de luva branca a Donald Trump) e há ainda o sistema do boletim de voto preferencial, que tende a dividir os óscares de melhor filme e melhor realizador quando o favorito não é consensual. Mas que "Roma" merece, merece.

Rui Pedro Tendinha: Está respondido. Apenas digo que para o ano a Netflix já vai ser vista como uma normalidade, não como uma anomalia. Hollywood adapta-se facilmente ao sinal dos tempos...

Vítor Moura: Questionar “Roma” porque tem o carimbo de uma plataforma digital ou porque não é falado em inglês é absurdo. A lógica da produção, a narrativa, a fotografia, as interpretações e a realização estão ao nível dos melhores filmes dos últimos anos, como atestam os mais de 150 prémios já atribuídos. As dez nomeações da Academia são (mais) um justo reconhecimento do projeto mais pessoal que Alfonso Cuáron já assinou. Se ganhar o Óscar de Melhor Filme, será um sinal de que o que mais importa é mesmo o Cinema.

Filipe Melo: É possível! Merecer, merece. É um óptimo filme, apesar de não ser o meu favorito de todos os que estão nomeados.

Polémicas e recuos sucessivos com o anfitrião, as canções, o Óscar de filme popular e as categorias de visibilidade reduzida: o que esperar da cerimónia este ano?

Mário Augusto: Tenho que confessar que já gostei mais da cerimónia do que gosto. Hoje é muito formatada no modelo de grande "talk-show" de "showbiz". Perdeu alguma espontaneidade nas reações de vitória, é menos exuberante como espetáculo e os momentos têm a preocupação de serem politicamente corretos... ainda para mais agora com o movimento #MeToo. As mudanças de modelo e de prémios não são mais do que respostas (em alguns casos retardadas) ao universo atual do cinema que está a mudar rapidamente. Mas estou curioso para ver como se resolve a questão do apresentador…

Maria João Rosa: É como já disse: são os Óscares da incerteza. Com tantas alterações de planos e tanta imprevisibilidade nos vencedores, não sei o que esperar da cerimónia este ano. Pelo menos, prometem que será mais curta, com menos de três horas (sendo que ainda podem voltar com a palavra atrás) e espero mesmo que haja surpresas logo no início, para dar alguma adrenalina à corrida. Não ter o tradicional monólogo inicial do anfitrião vai ser estranho, mas seguramente que a Academia vai tentar arrancar com o espetáculo em grande, as audiências assim o obrigam. A atuação dos Queen promete. Veremos como corre o resto, mas imagino que vamos ter mais música que comédia este ano.

Rui Pedro Tendinha: As coisas podem ser terríveis este ano. Se correr mal, o prestígio dos Óscares pode correr mal e o fenómeno da Academia pode esmorecer. Mas não estou pessimista, creio que colocar os Vingadores a apresentar a cerimónia era uma bom coelho saído da cartola, por muito que soasse a favor indecente à Disney. Além disso, como odeio o Kevin Hart, o ditado "há males que vêm por bem" acabaria por fazer sentido... Ah! E essas polémicas todas não serão uma estratégia para aumentar a notoriedade da cerimónia? O povo gosta de coisas malditas!

Vítor Moura: É uma grande incógnita. Ou a Academia de Hollywood surpreende com um espetáculo envolvente, dinâmico e consistente na entrega dos Óscares. Ou arrisca-se a confirmar, ao vivo e em direto, a impressão que começou a ganhar forma há várias semanas: o desnorte instalou-se na organização da maior festa do Cinema, em prejuízo da arte e da indústria que devia celebrar ao mais alto nível. É certo que é preciso conter a queda global das audiências na televisão. Mas, tão ou mais importante, é preciso saber gerir alterações e expectativas de forma consequente e profissional. Não foi o caso, este ano.

Filipe Melo: Bolas, há sempre tantas polémicas com os Óscares. Se calhar há uma comitiva que planeia polémicas anualmente. Bem... Acho sensato terem voltado atrás com a história de meterem a Montagem e a Fotografia nos intervalos. De resto, não tenho grande opinião a emitir. Façam o que acharem melhor. Os Óscares são, mais do que tudo, um bom serão para mamar umas minis. Mais do que os Óscares, o que é mesmo bom é ir ao cinema ao domingo.

Créditos: da esquerda para a direita, em cima: Filipe Melo (foto: Vitorino Coragem), Rui Pedro Tendinha. Em baixo: Vítor Moura (foto: Cinebox/TVI24), Mário Augusto (foto: RTP Comunicação). Ao centro: Maria João Rosa.

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