Segundo o diretor executivo da Nova Energia, produtora de eventos artísticos e culturais, Yuri Simão, o momento continua a ser desafiante para todos os intervenientes do setor porque "é muito difícil sobreviver numa situação em que as empresas não trabalham".

"No nosso caso, tínhamos produções em andamento e tivemos de parar tudo com custos já embutidos", disse, em declarações à Lusa, admitindo a possibilidade de "migrar para as pequenas e médias empresas e daí absorver apoios do Estado".

Para o responsável da Nova Energia, produtora do conhecido espetáculo musical "Show do Mês" que em março viu adiados dois espetáculos, o cenário "continua e será difícil para todos aqueles que trabalham com a cultura". Porque, adiantou, "um dos aspetos que pode ser muito negativo é a questão de as pessoas terem medo de voltar à rua e demorarem muito tempo para se voltar a adaptar e habituar esse movimento de massas".

"Penso que podemos ter uma quebra muito grande de receitas mesmo no futuro, mas acho que toda essa situação só depois de julho deverá ter alguma luz verde", admitiu.

Angola regista já 25 casos positivos do novo coronavírus, nomeadamente 16 casos ativos, seis recuperados e dois óbitos e cumpre hoje o décimo quarto dia da segunda fase do estado de emergência que visa contar a propagação da COVID-19.

A primeira fase do estado de emergência no país decorreu entre 27 de março e 10 de abril.

O Presidente da República, João Lourenço, decretou hoje o novo período de prorrogação do estado de emergência para mais 15 dias, entre 26 de abril e 10 de maio, já com o "aligeiramento de algumas medidas".

Escolas e centros de formação profissional encerrados, atividades culturais e desportivas canceladas, limitação na circulação e permanência de pessoas na via pública constam entre as medidas do período de exceção temporária.

Em período de isolamento social, muitos artistas angolanos, muitos sem rendimento fixo, servem-se das plataformas digitais para realizarem espetáculos gratuitos e com apelos à necessidade da observância das medidas de proteção.

Yuri Simão considerou, por outro lado, que devido à ausência de uma interligação entre as plataformas digitais, o setor financeiro e o de entretenimento "é difícil por via de espetáculos pela internet sem os artistas absorverem aí qualquer rendimento".

"Por isso vai ser difícil e também complicado nós termos cachês e condições financeiras para poder fazer melhor", frisou.

Por sua vez, a cantora angolana Selda Portelinha também considera difícil a atual situação dos artistas, "principalmente das pessoas que vivem da arte", defendendo uma "busca urgente" de alternativas para colmatar a falta de rendimentos.

"É uma classe que vai sofrer muito ainda depois de esta pandemia estar resolvida, vai ser uma classe ainda afetada porque acredito que o distanciamento social vai permanecer durante algum tempo mesmo depois da pandemia", disse, em entrevista à Lusa.

Para a "Morena de Cá", como também é chamada pelos fãs, torna-se cada vez mais "urgente a materialização dos direitos autorais, sobretudo a nível das rádios e televisões”, porque as plataformas digitais no país "são quase inoperantes".

"E realmente temos que pensar em estratégias e formas de termos rendimentos dentro da atividade artística que ainda assim dentro do isolamento sejam possíveis, porque é uma classe que ajuda as pessoas a permanecerem em casa", concluiu.

A nível global, segundo um balanço da AFP, a pandemia de COVID-19 já provocou mais de 200 mil mortos e infetou quase 2,7 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Mais de 720.000 doentes foram considerados curados.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

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