Pela dinâmica da vida, os três fizeram, ao longo dos anos, opções académicas diametralmente opostas, mas partilham algo em comum: não desgrudam dos livros.

À semelhança de milhares de leitores em Angola e no Mundo, passam horas fechados nesses espaços de inesgotáveis fontes de informação e conhecimento, de que estão privados de aceder, desde Março último, devido à pandemia da Covid-19.

Ctchissola, Manuel e Euclides, assim como milhares de compatriotas, celebram, esta quarta-feira, o Dia Mundial das Bibliotecas, num ambiente de reflexão e saudade.

Para eles, viver a efeméride afastados desses espaços e das leituras silenciosas constitui motivo de tristeza, pelo que aguardam, ansiosos, pela reabertura das bibliotecas públicas, em todo o país, a partir do próximo dia 13 de Julho.

Cthissola Alfredo, estudante do quarto ano na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, diz que tem feito uso das bibliotecas constantemente, por ser um espaço propício para estudar tranquilamente. "É gratificante o ambiente de estudo, estimula o conhecimento".

Por sua vez, Manuel José, estudante de Medicina, fala sobre a importância das bibliotecas para quem pretende buscar conhecimento, permanentemente. "Não servem só para uns e outros, mas para todos estudantes de cursos diversos", aponta.

Para Euclides Sacamboio, especialista em diagnósticos, as bibliotecas têm importância relevante, sobretudo, porque ajudam a preparar o cérebro para uma abordagem sobre diferentes tipos de matérias e a transformar o ser humano.

"Diz-se que a pessoa que lê transforma e torna-se uma biblioteca", sublinha.

No entanto, Euclides Sacamboio refere que as bibliotecas físicas, em Angola, carecem urgentemente de actualização do acervo e de mais cuidados.

"Há necessidade de fazer um investimento nas bibliotecas, em termos de aquisição de livros científicos em diversas áreas do saber", enfatiza.

Mais de mil utentes

Em Angola, apesar do aparente papel "subalterno" que jogam, depois do surgimento das mediatecas, as bibliotecas continuam a ter espaço entre os amantes da leitura.

Só a Biblioteca Nacional (BN), por exemplo, recebia em média, em 2019, mais de 10 mil utentes/mês para pesquisas de conteúdos científicos e pedagógicos.

Conforme dados da BN, essa instituição teve, em todo ano de 2019, um registo de 100 mil e 435 leitores.

Isso representa aumento de 23 mil e 275 visitantes, comparativamente ao 2018, em que teve a frequência de 77 mil e 160 leitores, segundo a sua directora-geral, Diana Lurruma.

Os números indicam que de Janeiro até princípio de Março deste ano (antes da pandemia da Covid-19 em Angola), a BN registou um total de 19 mil 867 leitores.

Diante desses dados, fica claro que, em plena era digital, a leitura convencional de livros ainda tem vez nas bibliotecas.

Elas são detentoras de acervos digitais e físicos que congregam um manancial de informação para expandir a inteligência e despertar a consciência dos cidadãos.

Numa sociedade cada vez mais carente de produtos e serviços, as bibliotecas possuem, nos seus espaços, acervos com uma ampla gama de assuntos em múltiplos suportes.

Pela sua natureza de órgão cultural, principalmente literária, constituem um ponto turístico, ou, simplesmente, espaço comum para governantes e governados.

Em países mais desenvolvidos, as bibliotecas tornaram-se em espaços de convívio social, onde o acesso à informação é fundamental, seja ela impressa, física ou online.

Além de livros, com os seus exemplares, podem emprestar aos usuários filmes em DVD ou Blu Ray, CDs, audiocursos, audiobooks, jornais, revistas e instrumentos musicais.

Conforme o Manifesto da UNESCO, as bibliotecas públicas são porta de acesso local ao conhecimento fulcral para o desenvolvimento cultural do indivíduo e dos grupos sociais.

Entretanto, em plena era digital, convivem hoje as mediatecas, instituições que, a par das bibliotecas, fornecem conhecimento variado, com excepção de serem online.

Segundo especialistas, as mediatecas não vêm substituir as bibliotecas, mas completar o seu serviço, porquanto uma é física e outra virtual.

Ambas, afirmam, são importantes para o desenvolvimento intelectual do ser humano.

Conforme Diana Lurruma, directora-geral da Biblioteca Nacional (BN), as bibliotecas e as mediatecas estão intimamente relacionadas, ou seja, "uma não deve excluir a outra".

"Ambas têm a mesma função, que é preservar, democratizar, disseminar a informação e o conhecimento, não obstante a mediateca disponibilizar essa informação ou acesso a conhecimento através de diferentes suportes e tecnologias de informação".

Nas bibliotecas são priorizados os livros como primeira fonte de consulta, mas, segundo a gestora, elas não são constituídas somente por estes suportes.

Em quase todas, encontra-se um acervo multimédia. "Não obstante o avanço das tecnologias, as bibliotecas sempre vão existir, porque nem tudo está disponível na Internet", assevera.

Nos últimos tempos, porém, é notório em países como na China, a inclusão, nas bibliotecas, de meios digitais, com realce para o computador ligado à Internet.

Pretende-se com isso satisfazer os anseios dos leitores, particularmente jovens, sedentos de usar as ferramentas das tecnologias de informação e comunicação.

Bibliotecas em Angola

Em Angola, a Biblioteca Nacional é a coordenadora da Rede Nacional das Bibliotecas Públicas, que está em crescimento, contando agora com 39, incluindo salas de leitura.

A província de Luanda, com mais de oito milhões de habitantes, congrega nove bibliotecas, número insuficiente para atender a demanda da capital do país.

As bibliotecas em Angola funcionam, segundo Diana Lurruma, apesar das dificuldades para a actualização constante do acervo bibliográfico e da insuficiência de técnicos.

Porém, explica, a BN é uma instituição polivalente de Depósito Legal obrigatório, logo, a maior parte do acervo é proveniente do Depósito Legal.

Já a aquisição do fundo documental, por parte das demais das bibliotecas públicas, é feita por recurso ao seu orçamento.

"A BN e as demais bibliotecas têm beneficiado de algumas ofertas ou doações de livros", sublinha.

Diana Lurruma faz saber que a Biblioteca Nacional tem mais de 100 mil (Cem mil) títulos de documentos, entre livros, revistas, jornais, mapas, discos e cartazes.

Indica que as obras mais antigas naquele espaço, além dos livros, são os jornais de notícias, Diário do Governo e Boletins oficiais.

Relativamente à formação de quadros, a directora-geral diz que a instituição realiza cursos de capacitação profissional em Bibliotéconomia, tendo como formandos técnicos de instituições públicas e privadas das diversas províncias do país.

Salienta, por outro lado, que o Instituto Superior de Ciências da Comunicação tem formado quadros em Bibliotéconomia e outros domínios ligados à gestão de bibliotecas.

Quanto ao incentivo ao gosto pela leitura, Diana Lurruma refere que existe cooperação entre o Ministério da Educação e da Cultura, Turismo e Ambiente, de formas a que a BN possa disponibilizar livros para as escolas.

"A BN tem levado a cabo o projecto Biblioteca Nacional às Escolas e, neste sentido, temos trabalhado com várias escolas para incentivar o gosto pela leitura nos alunos".

Afirma que sempre que solicitados pelas escolas, tanto as de Luanda, quanto a das demais províncias, ofertam livros a estas instituições.

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