Há cerca de seis anos, as casas de distribuição desses produtos culturais enfrentam uma realidade financeira sem precedentes, ficando muitas delas à beira da falência.

Devido à crise económica e financeira no país, dezenas de livrarias estão com menos receitas líquidas para importar material e manter vivo um negócio que já foi rentável.

Nos dias de hoje, quem procura por livros, nesses espaços, encontra as estantes quase vazias e as “casas” praticamente às moscas, particularmente na capital do país (Luanda).

O cenário em muitos dos antigos locais predilectos para a compra de obras didácticas, científicas, literárias (…) é "desolador", com os livros disponíveis praticamente "tomados" por pó.

O problema agudiza-se com a disponibilização de conteúdos até então exclusivos das livrarias nas plataformas digitais (Internet), deixando os livreiros com futuro incerto.

Vender livros e gerar lucros é, actualmente, algo que poucos conseguem. Diante desta realidade, várias “casas” já aventam a possibilidade de encerrar as portas.

"Devido à crise, a tendência é o encerramento de muitas livrarias, pela incapacidade de pagamento do arrendamento dos espaços, impostos e dos funcionários", adverte Bernardino António, trabalhador da editora e livraria Chá de Caxinde.

Até as livrarias mais populares, como a Mestria, a Chá de Caxinde e a Académica sentem "na pele" as dificuldades de importar, aumentar clientes e gerar lucros.

"Infelizmente, nesta época, o retorno financeiro não tem correspondido. Temos feito muito sacrifício para manter as livrarias", lamenta Bernardino António.

Negócio a meio-gás

Em Luanda, por exemplo, onde existia uma considerável rede de livrarias há 10 ou 15 anos, o cenário actual é assustador, pois muitas já "sucumbiram".

É o caso das livrarias Lello e Mensagem, até então pontos de convergência de pais, encarregados de educação e estudantes ávidos de comprar material didáctico.

Cenário pior registam as demais províncias, onde as livrarias, praticamente, estão a deixar de fazer parte do quotidiano dos cidadãos, há mais de duas décadas.

Face às dificuldades, as mais tradicionais buscam fusões e reduzem operações, para continuar a tocar um negócio claramente em queda, que querem ver reacendido.

Conforme o Ministério do Comércio, não existem, actualmente, números concretos para precisar quantas livrarias estão em efectiva actividade no país, pelo facto de muitas estarem registadas apenas como empresas, sem especificar a sua actividade.

Apesar de não quantificarem as que encerraram desde 2014, as autoridades confirmam uma tendência que todo o livreiro no país gostaria de ver evitada: a crise impactou no negócio.

As dificuldades decorrentes da falta de divisas para importar livros e dos altos preços dos produtos que afugentam os clientes são sentidas em todo o país.

No município do Sumbe, província do Cuanza Sul, por exemplo, existem 18 livrarias em vários bairros e ruas, que adquirem livros nos mercados paralelos e nalgumas editoras locais e de Benguela.

Em era de crise, as dificuldades consistem na transportação de livros, na falta de instalações condignas para a venda, de segurança e de editoras para a compra.

Nessa conjuntura adversa, os principais clientes são os estudantes e os professores.

Na província do Moxico, com sete livrarias em actividade, o cenário é idêntico.

A primeira casa que havia no Luena fechou em 2012. As poucas que ainda resistem têm dificuldades de diversificar o lote de produtos.

Grito de socorro

Os proprietários de livrarias no Moxico falam em dificuldades para adquirir livros a partir de Luanda, Benguela e Huambo, além da China e do Brasil.

O elevado valor cobrado pelos proprietários de viaturas para a transportação, devido ao mau estado das vias, também faz encarecer os preços.

Esse mar de problemas é sentido pela livraria Sapiência, aberta em 2003, uma das pioneiras da cidade do Luena. Fornece livros aos estudantes e profissionais.

Segundo os responsáveis, "nos últimos dias começaram a enfrentar grandes dificuldades ligadas aos elevados preços estabelecidos pelos fornecedores".

De acordo com o gerente da livraria MCM – Rogério, Alcibiase Mucuma, a distância entre o Moxico e os principais centros das cidades é um empecilho para a sustentabilidade das livrarias locais.

"Um produto adquirido em Luanda ou Benguela chega ao Moxico com preço completamente elevado em relação ao de compra, o que aumenta o custo a ser aplicado aos clientes", explica.

Apesar de agora começarem por estabelecer parcerias com pessoal do Huambo, a maioria dos fornecedores do Moxico está em Luanda.

Na província do Zaire, o quadro não difere. Há apenas duas livrarias, uma no Soyo e outra em M'banza Kongo, cujos materiais são, na maioria, adquiridos em Luanda.

Já no Cunene, funcionam três em Ondjiva, que adquirem livros nas províncias da Huíla e Luanda. Os mais procurados são os livros escolares.

A livraria mais antiga na província funciona desde 2005, mas, por causa da crise, reduziu as vendas.

Altas taxas preocupam

O problema da redução de livrarias em Angola é um assunto que já vem sendo equacionado pelas autoridades angolanas, que apontam a retirada da taxa de importação de livros comprados no exterior como uma das medidas a ter em conta para "salvar" o negócio.

Conforme Manuel de Sousa, da Direção Municipal da Cultura e Hotelaria em Luanda, boa parte das livrarias e das bibliotecas tem dificuldades para responder aos pedidos.

"Os altos preços que hoje se verificam na compra de livros estão ligados, essencialmente, à taxa que se aplica para a sua aquisição", explica.

Os proprietários e livreiros manifestam-se desolados com esse quadro sombrio.

As que resistem até hoje ao impacto da crise podem não ficar muito mais tempo de portas abertas, pois o mercado não apresenta soluções viáveis para a sua manutenção.

Segundo Bernardino António, da Chá de Caxinde, as empresas são obrigadas a reduzir a quantidade de pedidos de livros às editoras, porque, muitas vezes, “ficam seis a sete meses sem vender”.

"Numa edição de mil exemplares, se num lançamento venderem 70 ou 100 livros, já é uma satisfação, pois a tendência tem sido contrária", expressa.

Manuel Quisuma, funcionário da livraria Irmãs Paulinas, afirma que a maior parte das livrarias do país depende das importações.

Para fazer face à crise, a casa reinventou-se e procura estar mais próxima dos leitores, com iniciativas como o "Livro do Mês", "O Leitor da Semana" e exposições.

A livraria AMS Comercial, localizada no município de Cacuaco, compra livros às editoras Plural, Texto Editora,  Escolar Editora e alguns materiais às Irmãs Paulinas.

André Sebastião, gerente deste estabelecimento comercial, conta que, nos últimos tempos, muitas livrarias estão a deixar de existir, por causa da dificuldade de importação, face à escassez de divisas.

Explica que, desde 2017, o sector começou a sentir a verdadeira crise no que concerne à comercialização de livros. "Nesta altura, há dificuldades para ter retorno financeiro, devido ao impacto, razão que obriga a fazer poupanças", refere.

Já o gerente da livraria Barquinho, Afonso Cambundo, também reconhece ser difícil o acesso à moeda estrangeira para a importação.

Avança que outro problema passa pela taxa de câmbio praticada, que diz ser muito flutuante.

Lamenta que os bancos comerciais, onde se encontraria a nota a 35 mil kwanzas, criem dificuldades na aquisição dos valores, sendo as livrarias obrigadas a alternar entre o banco e o mercado informal.

Escritores lamentam

A propósito do tema, o escritor Artur Pestana "Pepetela" mostra-se preocupado, reconhecendo que o actual momento financeiro não facilita a importação de livros.

"O encerramento destes espaços reduz o acesso de leitores, contribuindo para o desinteresse ao gosto pela leitura", lamenta.

Vencedor de uma edição do Prémio Camões de Literatura, aponta como solução a potencialização das mediatecas, para corresponder à procura de livros pelos interessados, nos locais especializados.

Já o escritor João da Silva Cardoso aponta como solução a redução do custo de importação dos livros ou a abertura de mais gráficas, para a produção deste material em Angola, como formas de incentivar a abertura de novas lojas.

"O ressurgimento de livrarias em Luanda serviria para resgatar os hábitos de leitura e multiplicar o número de leitores que se perdeu ao longo dos anos", exprime.

Considera a perda do hábito de leitura, o aumento das taxas de importação, a perda do poder financeiro e o surgimento das plataformas on-line como motivos do encerramento de muitas livrarias.

"A nível mundial, com o surgimento de bibliotecas e livrarias on-line, os livros físicos perderam muito valor. Mas esta realidade não se observa em Angola, onde o número de pessoas com acesso à Internet ainda é reduzido", vinca.

Sobreviver à crise

Apesar do cenário adverso em quase todo o país, há quem consiga sobreviver ainda do negócio da compra, venda e distribuição de livros em Angola.

Segundo o diretor literário da Editora Asas de Papel, Lourenço Mussango, a instituição, até ao presente momento, para cada livro editado, continua a imprimir 1000 exemplares. O que quer dizer que, apesar da crise e do fraco poder de compra, continua a disponibilizar ao público a mesma tiragem de anterior.

"As livrarias nacionais, por norma, cobram 30 por cento do valor total de cada livro vendido. É uma taxa alta para as pequenas editoras que procuram estabelecer-se", comenta.

Jéssica Branco, diretora de marketing e inovação da editora Acácias, questionada sobre o impacto da crise nas livrarias, respondeu que  não afectou apenas as livrarias, mas também as editoras, gráficas, distribuidores e os consumidores.

Em função dessa realidade, defende a criação de políticas que permitam vender livros a um baixo preço e que estarão ao alcance dos leitores.

Enquanto essas políticas não surgem, a verdade é que o mercado do livro está cada vez mais duro e as livrarias ameaçadas, com as importações em baixa e as vendas reduzidas.

Porém, enquanto uns falam em fechar as portas, por falta de perspectivas do negócio, há quem ainda acredite em dias melhores e no ressurgimento das livrarias.

Entre um e outro pensamento, uma certeza existe: o futuro do negócio está nas mãos de todos: Governo, mecenas, empresários, escritores e leitores, que testemunham, todos os dias, o surgimento de mais casas de venda em risco de falir ou fechar as portas.

Qual será o futuro das livrarias se nada for feito?

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.