Esta ideia é defendida pelo historiador Rui Tavares, no prefácio da edição, que fez uma releitura da obra de uma forma completamente diferente da que fizera há muitos anos, numa altura em que o livro, inspirado na Peste de Londres de 1665, não lhe encheu as medidas como o fizera o “Decameron”, de Bocaccio, escrito durante a Peste Negra de 1348.

Partindo do aforismo de Heraclito segundo o qual não se pode tomar duas vezes banho no mesmo rio, o historiador confessa ser “impossível” voltar a ler o “Diário do Ano da Peste” como tentara fazer muito “antes da crise pandémica da COVID-19, em 2020”.

“Agora que todos vivemos uma situação pandémica à escala global, é muito mais fácil fascinarmo-nos pela imersão no detalhe que este livro nos permite; comparar estratégias de sobrevivência, entender ansiedades e pânicos, vestirmos a pele do protagonista através de cujo olhar a história de 1665 é brilhantemente contada”, afirma.

O romance de Daniel Defoe – ou “documentário”, como o caracterizou o crítico literário João Gaspar Simões – relata na primeira pessoa os acontecimentos durante a chamada Peste de Londres, a última epidemia de peste bubónica em Inglaterra.

Na altura, Daniel Defoe era apenas uma criança de cinco ou seis anos. O livro foi escrito em 1720, mais de meio século depois, a propósito de um novo afloramento da peste em Marselha, nesse ano, e do temor de que ela se pudesse espalhar outra vez pela Europa e chegar a Inglaterra.

Daniel Defoe, que tinha conhecido o sucesso três anos antes, com a publicação de “Robinson Crusoe”, e sendo ele um “homem prático, jornalista e polemista experimentado que sabia explorar o êxito” – escreveu João Gaspar Simões, que fez a tradução e a introdução da obra -, aproveitou o filão, que “era rendoso”, e recuperou a história da grande peste, usando a mesma fórmula que utilizou na sua obra-prima.

Enquanto na primeira “um homem vencia todas as dificuldades de viver numa ilha deserta que só lhe podia proporcionar condições de sobrevivência, na medida em que ele soubesse tirar partido prático do nada que o rodeava, na nova obra a própria cidade de Londres é que assumia a posição de náufrago”.

O autor lança então mão do processo adotado em “Robinson Crusoe”, ou seja, afirmava que nada era inventado no seu texto e, tal como no primeiro caso a história se inspirou num náufrago que durante quatro anos viveu sozinho na ilha de Juan Fernández, também nesta obra a história foi escrita “por uma testemunha da grande peste de 1665”.

Com efeito, no final do livro, o autor inscreve as iniciais H.F., levando a crer que se referia a um seu tio, de nome Henry Foe, que teria escrito um diário que Daniel Defoe deu à estampa.

De qualquer modo, a “leitura apaixonante” deste diário - como a caracterizou Gaspar Simões - “transporta-nos à perspetiva de quem ficou na cidade em 1665, e fala quase unicamente, obsessivamente, minuciosamente, da peste propriamente dita”, considera Rui Tavares.

Ma sua opinião, o olhar de quem lê agora “O Diário do Ano da Peste” é “inevitavelmente atraído pelas semelhanças entre as circunstâncias do protagonista e dos seus próximos e as nossas próprias circunstâncias, de uma maneira que antes as diferenças não conseguiam excitar”.

A partir desta nova realidade, são coisas diferentes as que chamam a atenção na leitura do livro: os pormenores da gestão da casa e das considerações sobre ficar na cidade e sair para o campo, as técnicas de prevenção da contaminação no mercado, o arrependimento por não ter aprovisionamento suficiente em casa para um mês, os açambarcamentos, ou as saídas à rua num sobressalto permanente, tentando evitar qualquer proximidade humana.

Da mesma forma, evoca as “leituras dos ‘boletins de mortalidade’, com os seus números assustadores”, assim como “a sensação acumulada de que tantos mortos nos anestesiam”, descrita por Samuel Pepys, um diarista que viveu em Londres em 1665 e que, em pleno pico pandémico, vendo passar uma carroça cheia de mortos, fez a seguinte constatação: “Já começo a sentir quase nada com isto”.

“O Diário do Ano da Peste” pode pois ser encarado como um romance ou como um documento, na medida em que se lê como um “manual de instruções: O que fazer em caso de peste? Que medidas tomam as autoridades? Como é viver em quarentena”, considera Rui Tavares.

E isto é verdade agora, como o era na altura em que o livro foi escrito, já que há uma experiência passada semelhante e relatada, ou documentada.

João Gaspar Simões também colocou ênfase neste aspeto, ao afirmar que “temos diante de nós o documentário, como hoje se diria, de um acontecimento verdadeiro que Defoe estudou em textos da época e fundamentou na leitura de obras que muito o auxiliaram a apresentar o cenário londrino”.

Isto explica “o caráter quase estatístico da obra” – considerou Gaspar Simões -, fértil em gráficos e dados fornecidos pelos boletins de mortalidade, misturados com histórias verídicas narradas em primeira ou segunda mão.

Mas este livro pode ser lido não apenas como um texto para entender o passado, ou como um guia para ajudar no presente, mas como um documento para antever o futuro, na perspetiva de Rui Tavares.

Lembrando que Inglaterra viveu um período de guerra civil, a que se seguiu a peste, com mais de 200 mil mortos, e logo de imediato o grande incêndio de Londres, que vitimou quase outras tantas, o historiador sublinha que foi a geração de Daniel Defoe que acabou por fazer o Tratado de União entre Inglaterra e Escócia (1707) e a Paz de Utrecht (1713), e por lançar o movimento literário e intelectual iluminista.

Talvez por isso – considera – “se possa ler este livro nas entrelinhas, não só para entender como lidavam os nossos antepassados com uma peste, mas para entrever também que revoluções farão os filhos da pandemia no futuro”.

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