"Depois de ter chegado ao poder quase por acaso, o patriarca entrega o controlo dos recursos do país ao seu círculo mais próximo ao longo de 38 anos; com isto torna-se o chefe todo poderoso de um clã que em pouco tempo se tornou muito rico", lê-se na contracapa do livro escrito pela jornalista francesa Estelle Maussion, que será apresentado na terça-feira em Lisboa.

Editado pela Oficina do Livro, o texto de 144 páginas passa em revista os 38 anos da Presidência de José Eduardo dos Santos e conta como o antigo Presidente acumulou uma considerável fortuna pessoal, ofereceu contratos à sua filha, a empresária Isabel dos Santos, e colocou outro dos seus filhos, José Filomeno dos Santos, encarregue da gestão de 5 mil milhões de dólares do Fundo Soberano.

Seguindo uma narrativa quase histórica, a jornalista que foi correspondente da agência francesa de notícias France Presse e da Rádio France Internationale (RFI) em Angola entre 2012 e 2015 conta vários episódios que resultam da sua investigação, e contextualiza outros que foram sendo noticiados pelos órgãos de comunicação social ou contados por organização não governamentais.

Entre os vários episódios contados no livro está a história sobre como Isabel dos Santos, que não respondeu aos pedidos de entrevista da autora desde 2013, conseguiu entrar em toda a cadeia de valor dos diamantes de Angola, "das minas às vitrines de luxo", fazendo com que "não haja pedra que não dê algum dinheiro à princesa" num negócio em que "as receitas são de vários milhões de dólares por mês".

Num estilo acutilante, mas documentado, Estelle Maussion escreve, sobre a participação de Isabel dos Santos no negócio diamantífero e a importância da influência do pai, o Presidente, na condução dos seus negócios: "Num almoço com um jornalista do Financial Times em 2013 [Isabel] fala de um pequeno negócios no transporte e na comercialização de um sistema de walkie-talkie; o pai vê-a dispersar-se e decide dar-lhe um empurrão; que haverá mais adequado a uma princesa do que diamantes? (...) Não se trata de um empurrão, mas de uma fortuna cedida de mão beijada. Os diamantes são avaliados por baixo à saída do país, fazem escada no Dubai e daí partem, já corretamente avaliados, para Anvers, na Bélgica, a capital mundial do diamante, onde aí são vendidos. A margem realizada no Dubai e em Anders vai parar aos bolsos das sociedades intermediárias, detidas por Isabel, pelo marido, por Gaydamak e pelos seus associados, denunciada desde 2016 pela eurodeputada Ana Gomes".

No entanto, nem só de negócios duvidosos se ocupa o livro que passa em revista o reinado de José Eduardo dos Santos, que ocupa a parte final a olhar para a governação e os desafios de João Lourenço na Presidência de Angola, não esquecendo o que chama de "batota" na gestão do processo do antigo vice-presidente Manuel Vicente, cujo processo de investigação judicial foi transferido de Portugal para Angola depois de um 'braço de ferro ' diplomático.

Numa conversa imaginária, a autora pergunta ao Presidente: "Porque conservou Manuel Vicente? Responde-lhe em voz baixa. Quem conhece como ele os segredos do poder? Quem tem os dossiers que permitem manter a família dos Santos em sentido? Quem como ele tem tão boas relações no estrangeiro? E sim, é verdade, está ali um ponto baixo da sua luta contra a corrupção. Mas não teve escolha. Não pode estar em guerra com todos os que o rodeiam. Tem necessidade de aliados, de conselhos, de ideia", escreve a autora para explicar a manutenção do antigo presidente da Sonangol no círculo próximo de João Lourenço.

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