“Este livro é capaz de ser mesmo o último [sobre a história contemporânea de Angola] porque está a ser muito difícil gerir o pós escrita”, afirmou o escritor angolano Pepetela, no Festival Literário Internacional de Óbidos, a dois dias do início da 11.ª edição do festival Escritaria, em Penafiel, que lhe é dedicada.

Orador numa mesa de autor do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, no sábado à noite, o autor de mais de duas dúzias de obras partilhou com o público a “dificuldade” de escrever as 271 páginas de “Sua Excelência de Corpo Presente", o seu último livro, lançado no dia 18, em Luanda (Angola), já disponível no mercado português, pelas Publicações Dom Quixote.

Foi, “de todos os meus livros, o mais difícil de escrever”, disse, lembrando ter demorado “seis anos” a pôr no papel a obra em que um ditador africano jaz deitado num caixão, mas que, apesar de morto, “vê, ouve e pensa”, entretendo-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer ‘adeus’.

As memórias da “excelência” são para o autor o pretexto para relatar os meandros do poder político, no que poderá ser “num local indeterminado de uma qualquer nação africana”.

O livro que Pepetela considerou ser “uma realidade bastante geral”, em que nenhum dos personagens “corresponde realmente a qualquer pessoa” é, no entanto, “capaz de ser uma ajuda para fechar aquele ciclo”, no país, e na escrita do autor que prometeu dedicar-se a “livros mais pequenos, com mais ficção e menos personagens”.

Até porque, disse Pepetela perante mais de uma centena de pessoas que o ouviram no Folio, Angola “está diferente, desde que “de há um ano para cá a esperança renasceu e claramente há mudanças”.

Por exemplo, contou, “nunca tinha acontecido que alguém com um posto acima de chefe de departamento provincial tivesse sido detido”, sublinhando as recentes detenções de “um antigo ministro, do antigo governador do Banco Nacional de Angola e até de um filho [José Filomeno dos Santos] de um ex-presidente [José Eduardo dos Santos]”.

No país onde reconheceu haver “um poder mais próximo das populações” e órgãos de informação “menos controlados”, o escritor admitiu, no entanto, que se mantém “um problema quase insolúvel: a questão da corrupção, da impunidade e dos privilégios que alguns têm, particularmente na função pública”.

Como mudar isso, é a interrogação deixada pelo escritor, optimista por natureza, mas cauteloso na análise sobre a continuidade das mudanças políticas operadas pelo Governo de João Lourenço.

Porque, concluiu, Angola “está diferente” e “o mundo vê o país de uma forma um bocado diferente”, mas “não suficientemente diferente para investir o seu dinheiro lá”.

Pepetela, vencedor do Prémio Camões em 1997, participou pela primeira vez no Folio onde esteve à conversa com o escritor angolano Ondjaki, numa das mesas de autor mais participadas da quarta edição do evento.

Dividido em cinco capítulos (Autores, Folia, Educa, Ilustra e Boémia), o festival decorre até 07 de Outubro, com 831 horas de programação que envolvem 554 participantes directos, entre autores, pensadores, artistas e criativos, num programa com mais de 185 actividades.

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