Numa primeira declaração oficial, enviada através da editora em Portugal, a Cavalo de Ferro, Olga Tokarczuk, que estava apontada entre os favoritos ao Nobel da Literatura, conta que soube que venceu o prémio “nas circunstâncias mais estranhas — na autoestrada, algures ‘a meio’, num lugar sem nome”.

“Não consigo pensar numa metáfora melhor para descrever o mundo em que vivemos. Atualmente, nós os escritores confrontamo-nos com desafios cada vez mais improváveis e, no entanto, a literatura é uma arte de movimento lento — o longo processo de escrita torna difícil apanhar o mundo ‘em flagrante’”.

“Muitas vezes questiono se é sequer possível descrever o mundo, ou se já somos demasiado impotentes perante a sua forma cada vez mais fluída, a dissolução de pontos fixos e o desaparecimento de valores”, acrescenta Olga Tokarczuk, autora de obras assentes no passado do seu país, que tem sido duramente criticada pela direita na Polónia, e que já esteve sob ameaças de morte que levaram a editora local a contratar guarda-costas para garantir a sua segurança.

A escritora afirma ainda: “[Acredito] numa literatura capaz de unir as pessoas e mostrar o quão semelhantes somos, que nos torna conscientes do facto de estarmos ligados por fios invisíveis. Que conta a história do mundo como se este fosse um todo vivo e uno, desenvolvendo-se de forma constante à frente dos nossos olhos, e no qual nós temos um pequeno, mas poderoso papel”.

Na sua comunicação, Olga Tokarczuk felicita o escritor austríaco Peter Handke, que venceu o Prémio Nobel da Literatura referente a 2019 e declara: “Estou contente por ambos virmos da mesma parte do mundo”.

Olga Tokarczuk e Peter Handke foram distinguidos na quinta-feira com o Prémio Nobel da Literatura de 2018 e 2019, anunciados em Estocolmo pela Academia Sueca, depois de um interregno de um ano, devido a um escândalo de abuso sexual e crimes financeiros que abalou a organização.

Um total de 116 escritores – dos quais 15 mulheres – já foram distinguidos com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído desde 1901.

A Academia Sueca justificou a escolha de Olga Tokarczuk “por uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida”.

Para a instituição que atribui o prémio, a escritora “nunca vê a realidade como algo estável ou permanente” e “constrói os seus romances numa tensão entre opostos culturais; natureza ‘versus’ cultura, razão ‘versus’ loucura, masculino ‘versus’ feminino, casa ‘versus’ alienação”.

A “grande obra” da laureada até ao momento é, para a academia, o “impressionante romance histórico “Os livros de Jacob”, publicado em 2014 e sem edição em português.

Em Portugal, a autora tem publicado apenas um livro, “Viagens”, vencedor do Prémio Man Booker Internacional em 2018, e chega às livrarias na próxima segunda-feira “Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, livro que foi finalista do Prémio Booker internacional deste ano. Ambos estão editados na Cavalo de Ferro.

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