Criador dos sucessos “Azulula”, “Mungole”, “Africa Yami”, “Itela” e “Celebração”, bem como vencedor do Prémio Nacional de Cultura e Artes/2014, com a obra “Mungole”, o artista mostra-se preocupado pelo facto de, nos últimos tempos, haver pouca criatividade na música angolana, sobretudo na composição.

A falta de executantes e fabricadores de instrumentos tradicionais como Cariaria, Ngoma (tambor/batuque), Puita, entre outros, preocupa, igualmente, o músico.

Angop: Como avalia o actual momento da música angolana?

Gabriel Tchiema (GT): A música angolana, em termos de qualidade, tem estado a dar passos significativos no que toca à sonoridade. Hoje, já podemos compará-la às sonoridades internacionais. Temos dado avanços para estar em pé de igualdade com os mercados mais exigentes.

Mas, agora, julgo que, relativamente à musicalidade, de alguma forma, estamos a fugir dos padrões nacionais.

Ouvindo dois ou três artistas da nova geração, quase ouço a mesma música, o que muda é apenas a interpretação. Há pouca criatividade, desde a concepção musical à temática.

Na minha opinião, os assuntos sociais não estão a ser tratados como deviam ser. Penso que estamos a deixar a música angolana órfã dos artistas.

Os artistas em quem eu pensava que pudessem levar para o exterior o que somos e fazemos em termos de musicalidade e obrigar o mundo a ouvir Angola desistiram, talvez na ânsia de alcançar o sucesso económico para a sustentabilidade.

Angop: Como mudar este quadro?

GT: Temos a obrigação de criar e mostrar ao mundo o que somos enquanto angolanos. Devemos ser cidadãos do mundo, com a nossa própria identidade. Não deixo de ser cidadão do mundo se me apresentar como angolano, cantando Semba, Txianda, Macopo e outros estilos nacionais.

Por isso, enquanto cantor, busco sempre as sonoridades e os ritmos tradicionais, que são muito ricos em quase todos os sentidos, para que as pessoas, em particular, e o mundo, em geral, possam identificar-me como angolano e, particularmente, como homem da etnia Côkwe.

Angop: Como transmitir este legado à juventude? 

GT: Os jovens precisam de perceber e entender o que são, não podem viver sem ter identidade. Enquanto músicos, devemos perguntar-nos que caminho estamos a seguir, quem somos perante o mundo, como é que o mundo olha para nós como artistas e que características temos.

Não tive um legado, ninguém me ensinou a segurar na música-base, tentar fazer e modernizá-la sem atropelar padrões, fui à busca disso e, graças a Deus, hoje a minha Txianda não é rústica, consigo colocar, neste estilo de música, instrumentos convencionais, trazendo mensagens que brotam o que sinto e associo com as cores do mundo, para que os ouvidos mais exigentes possam, de alguma forma, digerir.

Angop: O Ministério da Cultura tem alguma responsabilidade nisso?

GT: Sim. O Ministério da Cultura deve ter políticas para facilitar esta compreensão, essa passagem de testemunho, mas a juventude tem de saber qual é a sua origem. O que é mais importante: aparecer no mundo mesclado, sem nenhuma identidade ou aparecer descaracterizado?

O Ministério e outros órgãos afins têm de ser mais rigorosos no que toca à composição dos artistas. Não estou a dizer que as pessoas não devem fazer outros estilos musicais, mas que, ao apostarem, coloquem alguma coisa na música que as identifique como angolanos.

Posso estar em qualquer parte do mundo, se eu ouvir uma música de Angola, tenho de saber que ela é angolana, não só porque é entoada em língua nacional, mas também porque a própria rítmica assim o diz.

Corremos o risco de um dia podermos ver as nossas línguas e as nossas músicas originais nos museus em cassetes e discos, porque não estamos a ser sérios. Tenho medo que, quando a geração do Bonga, Paulo Flores, Waldemar Bastos, Carlos Burity, Calabeto, entre outros, que fazem e tocam a verdadeira música angolana, não tiverem mais força para continuar, por causa da idade, o nosso Semba e o folclórico desapareçam, pois, infelizmente, a juventude não terá pernas para dar continuidade.

Angop: Não está a exagerar?

GT: Não. Enquanto director da Cultura na Lunda Sul, tenho dados credíveis de que, daqui a mais 30 ou 50 anos, vamos começar por procurar a nossa cultura com “binóculos”, uma vez que hoje é difícil encontrar, por exemplo, na região Leste, um executante do Txicuvo ou Ngoma (tambores), da Cariaria ou um intérprete novo que possa cantar Txianda e Semba como tal, capaz de buscar sonoridades do mundo, para mostrar que a música angolana pode ser mesclada e transportada para os mercados internacionais.

Há aqui dados que dão medo. Hoje por hoje, andamos à procura de fabricantes de instrumentos tradicionais, mas não encontramos até ao momento.

Sem querer ser extremista e de alguma forma inconsequente, diria que estamos a caminhar para depositar os nossos usos e costumes nos museus. Um dia, se não trabalharmos a sério para mudar o quadro, as pessoas hão-de me dar razão, dado que são situações que vou constatando e escrevendo. Há aqui um complexo de assumirmos o que somos, sobretudo no Leste.

Angop: O que o leva a ter sucesso e aceitação nalguns mercados internacionais, embora cante em língua nacional e use ritmos tradicionais?

GT: O único segredo é saber que sou angolano, sou da etnia Côkwe, olhar para o mundo, transpirar e viver como tal. Precisamos de trabalhar, a fim de que as pessoas, ao ouvirem as nossas músicas, nos identifiquem logo como angolanos.

É preciso pegarmos nos instrumentos, até nos convencionais e termos a capacidade de transformar os sons que brotam neles na nossa música, no nosso Semba, Txianda, Cabetula, entre outros estilos predominantes no país.

É como perguntar a um português por que razão canta fado e ele responder porque é português.

Angop: Então, é contra estilos musicais como o Hip-Hop, Kizomba, Kuduro e outros?

GT: Respeito as pessoas que vão fazendo as suas coisas sem ter bases, vão buscar suportes aos outros continentes. É claro que cada um faz o que bem entender, mas eu, como angolano, não tenho outra forma de viver e cantar. O Kuduro é nosso, é angolano e eu gosto, apesar de, nos últimos tempos, estar a ser confundido com outros estilos, como Afro-House.

Angop: O que fazer para sermos bem respeitados no mundo?

GT: Só seremos bem respeitados se um artista deste mosaico nacional, que teima em fazer a música de raiz a sério, der o alto, romper barreiras e conseguir fixar-se no mercado internacional. Isso custa muito dinheiro. É mentira que só o talento e o dom catapultam um músico. São precisos investimentos sérios.

Angop: E a internacionalização da música angolana?

GT: Já houve momentos em que a música angolana, falo da verdadeira música angolana, a original, o nosso Semba, por exemplo, estava a caminhar para a sua internacionalização, através de Waldemar Bastos, Bonga e Paulo Flores que, com esforços próprios, a levaram para onde puderam. Se estes artistas tivessem o apoio de empresários e do Estado, poderiam ter chegado mais ao longe.

Hoje, quando se fala da internacionalização da música angolana, na minha opinião, é uma falsa questão e também alguma incoerência nesse sentido. Existem aqui coisas que poderíamos dizer que podem ferir sensibilidades, mas precisamos, cada vez mais, de a tratar com algum respeito e, sobretudo, com sentimento de angolanidade.

Neste momento, o que está a ser internacionalizada é a música feita em Angola, não a música angolana como tal.

Angop: O que pensa dos músicos da nova geração, como Yuri da Cunha e Puto Português, que fazem sucesso com o Semba?

GT: Yuri da Cunha e Puto Português são dos músicos da nova geração que vão tentando levar a música angolana para outros continentes, são jovens que não seguem ondas, estão a fazer aquilo que os caracteriza como angolanos, seguidores firmes das pegadas dos mais velhos.

Espero que sejam seguros, caminhem sem muitas máculas, levando a música angolana para outros pontos do mundo, respeitando os padrões que não devem ser atropelados, só porque queremos fazer as pessoas dançarem, para fazer dinheiro.

Se os nossos jovens forem mais sérios e, de uma forma acústica, tratarem as nossas músicas originais, vamos chegar mais ao longe.

Angop: A escola de formação, aproveitando os mestres do Semba, Txianda e tocadores de instrumentos musicais tradicionais, seria uma solução?

GT: A formação só não basta, é preciso que os músicos da nova geração manifestem esta vontade de aprender a tocar, a interpretar e a compor. Os nossos músicos, percussionistas, guitarristas e outros instrumentistas precisam de viajar mais para o interior do país e investigar a nossa musicalidade, visto que Angola tem muito ainda por se explorar.

É sempre bom apostarmos na formação profissional dos músicos, no sentido de que tenham a noção do que tocam, do que cantam, do que compõem, mas só isso não basta, depende também da vontade e da criatividade do artista, para além dos investimentos que são indispensáveis.

Angop: Cinco anos ausente no mercado, para quando uma nova obra discográfica?

GT: Estou a trabalhar, já tenho 90 por cento do próximo álbum feito. Acredito que, no fim deste ano ou no princípio de 2019, entrarei em estúdio para a gravação. O álbum terá 12 a 16 músicas dos estilos Txianda, Jazz e Afro Bit. Vou rebuscar dois temas do segundo para dar outra qualidade.

Angop: Alguma participação?

GT: Não vou adiantar nomes. Será uma surpresa, mas terei, sim, algumas participações, até de músicos e instrumentistas locais.

Angop: Sonho...

GT: Ao comemorar os 40 anos de carreira, daqui a três anos, perspectivo realizar um espectáculo só com instrumentos tradicionais e juntar o moderno e o tradicional, mostrar ao mundo e aos angolanos que os nossos instrumentos podem trazer aos ouvidos mais exigentes sonoridades agradáveis e ritmos ricos.

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