A biblioteca de música privada e independente, conhecida como ARChive of Contemporary Music (Arquivo de Música Contemporânea), situada numa rua do bairro de Tribeca, no sul de Manhattan, conta com mais de três milhões de discos, a maioria de vinil e alguns CDs e cassetes, além de uma vasta coleção de memórias.

"Estamos sempre a descobrir coisas que não conhecíamos", contou à AFP o cofundador B. George, da sua mesa escondida atrás das prateleiras.

Numa época dominada pelo streaming e pela efemeridade dos meios digitas, espaços como o ARCHive podem ser vitais para preservar cópias que podem ser a chave para ouvir esta música no futuro.

As notícias durante o verão de que cerca de 500 mil discos de artistas como Billie Holiday, Louis Armstrong, Joni Mitchell e Eric Clapton foram destruídos num incêndio de 2008 na Universal Studios reforçaram a importância de proteger as cópias físicas.

Alguns dos registos perdidos incluem gravações mestres, a matéria-prima para reedições lucrativas e lançamentos póstumos.

Embora nada possa substituir um mestre perdido, George disse que as editoras pediram os seus arquivos para ouvir as versões mais próximas do original possível.

Dois discos de uma reedição da falecida estrela nigeriana Fela Kuti, por exemplo, foram feitos de vinil pertencentes ao ARCHive.

"Tentar manter uma coleção intacta é muito importante", afirmou George.

George iniciou o arquivo em 1985, quando a área estava apenas a começar a atrair artistas ansiosos por colonizar os antigos armazéns atrás de preços baixos.

A certa altura, o arquivo teve 125 mil LPs de rock clássico – aproximadamente 1500 deles de artistas como Jimi Hendrix –, que estavam numa casa em Boston, que foi condenada depois de se ter descoberto que estava literalmente a afundar sob o peso do vinil.

Ao contrário da reputação de snob frequentemente atribuída a colecionadores e curadores, o ARCHive recebe essencialmente registos relacionados com música pop – que a define como "não clássica" – de braços abertos. E conta com a filantropia para pagar o aluguer sempre crescente numa das áreas mais caras do país, especialmente de músicos famosos.

Entre os primeiros apoiantes estava a artista de vanguarda Laurie Anderson – que George apresentou ao seu futuro marido, Lou Reed – e Nile Rodgers, conhecido por êxitos como "Le Freak", do seu grupo disco Chic, cuja partitura original está no ARCHive.

Laurie Anderson

Os atuais membros do conselho incluem Rodgers, Richards, Youssou N’Dour, Martin Scorsese e Paul Simon, enquanto Reed e David Bowie são eméritos.

Hoje, a gigantesca coleção – mantida por George e diversos voluntários e estagiários – é utilizada principalmente para pesquisas da indústria fonográfica, além de cineastas e pesquisadores.

O Museu do Grammy, por exemplo, precisou uma vez de 3 mil discos e capas para gráficos, e pediu-os a George.

"Podem vir até nós e dizer que precisam de 3 mil coisas em duas semanas, e há uma boa hipótese de termos quase todas", afirmou.

No entanto, mesmo que George veja a preservação do físico como uma tarefa vital, acredita que "tudo é fugaz" face ao risco de um desastre.

O ARCHive está a trabalhar com o Internet Archive, sem fins lucrativos, com sede em São Francisco, para começar a digitalizar e manter "o máximo de coisas em tantos lugares quanto possível".

De acordo com George, aproximadamente 130 mil discos de 78rpm – vinis frágeis geralmente feitos de resina de goma-laca, populares até meados do século 20 – foram digitalizados até agora e estão disponíveis para transmissão online gratuita.

"As bibliotecas ardem", afirmou. "Realisticamente, em 5 mil anos tudo isto será poeira".

"Fazemos o nosso melhor, esperamos que a migração aconteça, que chegue ao próximo estágio, que chegue à próxima forma de ser preservada, mas é imprevisível".

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