O escritor e músico angolano aceitou o convite com muita “satisfação e responsabilidade” e, apesar de “ainda não ter começado a programar”, garante que já tem “algumas ideias”.

“Pediram-me para fazer foco na literatura angolana, mas eu disse que não me sentiria bem se não incluísse todos os países de expressão portuguesa. Quero muito incluir a Guiné-Bissau, São Tomé, Cabo Verde, Moçambique. Também por causa da situação que o Brasil atravessa neste momento, quero estender [o convite] aos escritores afro-brasileiros, eles têm muito a dizer neste momento”, contou Kalaf Epalanga em entrevista à agência Lusa.

Epalanga nasceu em Benguela, Angola, e vive entre Berlim e Lisboa. Como músico, é cofundador da editora independente Enchufada. Faz também parte da banda Buraka Som Sistema, actualmente em hiato. Este lado profissional também marcará a curadoria que terá a cargo.

“Vou estender uma programação paralela com o foco na música, a música que tenha uma relação mais directa com a poesia e a literatura. Quero músicos que escrevem fora da música. Vou estender o convite para essas pessoas que têm actividades múltiplas. É uma das minhas vontades e as directoras gostam das propostas preliminares que fiz”, assegurou o escritor.

O evento, que vai decorrer nos dias 17, 18 e 19 de Abril de 2020, na capital alemã, tem como tema principal "Tell the Origin Stories" (“Conta as histórias da origem”).

“Indo de encontro ao título, quero trazer bons contadores de histórias. Grande parte das histórias africanas são transmitidas de forma oral. Não esquecer que isso é uma tradição que nos alimentou e que alimenta muitos dos nossos escritores”, acrescentou.

Kalaf Epalanga vai ser o primeiro curador de expressão portuguesa do Festival do Livro Africano de Berlim que vai para a terceira edição. É uma iniciativa que “ainda está a começar”, mas que tem “margem para crescer”, frisa o escritor, explicando que a Alemanha é um país de “leitores ávidos”, mas aos quais a literatura africana ainda não chegou.

“Visitei as duas edições anteriores e, em conversa com algumas pessoas que estão envolvidas na produção do festival, manifestei curiosidade e perguntei porque é que a maior parte dos festivais de literatura africana só incluem os países anglófonos e, quando estendem um pouco mais, incluem um ou dois autores francófonos”, detalhou Epalanga, acrescentando que essa “ironia” pode ter ajudado a que o convite surgisse.

“Eu era só mais um escritor a ser sarcástico, não pensei que isso fosse consequente”, confessou, admitindo que o facto de ter repetido o comentário noutro festival e de ser capa da revista “Nansen”, que está a ter bastante repercussão na Alemanha, também possam ter contribuído para ter sido escolhido para a curadoria.

“Acho que aquilo deve ter accionado algum botão e talvez tivessem pensado que eu era a pessoa certa”, referiu.

Para Kalaf Epalanga, a literatura africana está a atravessar um bom momento que deve ser aproveitado.

“Já na primeira edição me lembro de estar a mandar mensagens aos meus amigos escritores a dizer que temos de fazer alguma coisa para sermos incluídos na conversa. Já era o segundo ou terceiro festival de literatura africana que visitava, sem nunca ter visto um africano de expressão portuguesa”, revelou.

“Nota-se que o mundo está a virar para outras literaturas. Ou seja, aquele cânone clássico europeu está a alargar-se e a incluir outras vozes. […] Isso sente-se e vê-se noutros festivais. Há pouco decorreu o Festival Internacional de Literatura de Berlim e abertura ficou a cargo da escritora Petina Gappah, do Zimbabué”, continuou.

O escritor e músico acredita que, para que a literatura africana ganhe espaço, é preciso trabalho e esforço dos próprios autores, que “não se podem isolar”.

“Os escritores emergentes têm de incluir festivais na sua agenda, nem que seja como espectadores. É muito importante sairmos da nossa zona de conforto e procurar, não só os leitores que estão atentos e entusiasmados com as histórias que estamos a contar e as temáticas que estamos a abordar, mas também conversar com editores, com agentes, com jornalistas, apresentar-nos”, precisou.

Mais de 1500 pessoas passaram pela última edição do festival, em Abril, que incluiu palestras, leituras, entrevistas e debates. Cada ano, o programa é criado por uma figura literária do continente africano, centrando-se nas diversidades linguísticas e culturais.

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