O compositor, um dos nomes mais importantes da música brasileira, morreu na sua casa, no Rio de Janeiro, revelou o seu filho João Marcelo Gilberto, citado pelos media brasileiros.

João Marcelo Gilberto anunciou a morte do pai na rede social Facebook, enaltecendo "a sua luta nobre" e a tentativa de "manter a dignidade", apesar de ter perdido "a sua autonomia".

O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical bossa nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado e em solidão no Rio de Janeiro.

Derivado do samba e com influências do jazz, o estilo bossa nova surgiu no fim da década de 1950 pelas mãos de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e de jovens cantores e compositores da classe média do Rio de Janeiro.

O álbum que marcou o início da bossa nova, "Chega de saudade", foi composto por Tom Jobim (1927-1994) e Vinícius de Moraes (1913-1980). João Gilberto deu voz à versão mais conhecida da música, lançada em agosto de 1958.

Em 1961, o cantor e compositor concluiu a trilogia de álbuns que, de acordo com o portal da Globo, "apresentaram a Bossa Nova ao mundo": "Chega de saudade" (1959), "O amor, o sorriso e a flor" (1960) e "João Gilberto" (1961).

Entre suas muitas canções antológicas destacam-se "Desafinado", "Garota de Ipanema", "Chega de saudade", "Rosa Morena", "Corcovado" e "Aquarela do Brasil".

"João mudou para sempre a música do mundo. Ele ensinou delicadeza ao Brasil, trouxe a modernidade. É uma perda irreparável", reagiu em comunicado a cantora Gal Costa ao anúncio do falecimento.

João Gilberto

À altura de sua genialidade, a vida para João Gilberto nunca foi fácil. O seu perfeccionismo aproximava-se a obsessão neurótica. O seu lado excêntrico e a sua fobia social — viveu recluso durante anos — eram tão conhecidos como o seu talento.

"A importância dele é incalculável porque ele foi a principal voz do movimento musical brasileiro mais conhecido do mundo e foi revolucionário quase que involuntariamente", avaliou à AFP Bernardo Araujo, crítico de música do jornal O Globo.

"Ele foi, pelo menos no Brasil, o primeiro cantor que não precisou de um vozeirão para cantar. Ele cantava baixinho, como um sussurro, com um violão virtuoso de acompanhamento", acrescentou o crítico.

"Tristeza não tem fim"

Ao longo de vários anos, João Gilberto viu-se envolvido em um conflito entre dois de seus três filhos, João Marcelo e Bebel Gilberto, também músicos, e a sua última mulher, Claudia Faissol, uma jornalista 40 anos mais nova que ele e mãe da sua filha adolescente.

Bebel e João Marcelo acusam Claudia Faissol de se aproveitar da fraqueza do pai e provocar a sua ruína.

Sinalizando essas tensões, na sua mensagem no Facebook, João Marcelo escreveu este sábado: "Agradeço à minha família [o meu lado da família] por estar lá para ele".

No final de 2017, Bebel Gilberto obteve a tutela do pai, quando este já não podia cuidar da sua saúde e das suas finanças devido à fragilidade física e mental.

"Gostaria que ele tivesse um final de vida feliz e tranquilo", disse João Marcelo, filho do casamento de João Gilberto com a cantora Astrud Gilberto, à revista Veja em abril do ano passado.

Bebel nasceu do seu segundo casamento, com a cantora Miúcha, que morreu em dezembro do ano passado.

João Gilberto viu-se obrigado a abandonar o seu apartamento porque não pagava o aluguer há meses. Desde meados de 2008 passou a morar numa casa alegada,ente emprestada pela empresária Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano Veloso.

A maioria dos brasileiros viram João Gilberto pela última vez num vídeo em 2015, onde apareceu muito magro e de pijama a cantar "Garota de Ipanema" para a neta, acompanhado do seu violão.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.