O SAPO esteve à conversa com Paulo Flores, no ambiente intimista do seu estúdio, para saber um pouco mais sobre o artista, o homem, e a forma como analisa o mundo e a música à sua volta e antecipar a chegada do novo álbum “Bolo de Aniversário”.

Com uma carreira de quase 28 anos, Paulo Flores é um nome incontornável na música angolana, tanto a nível nacional como internacional. Para o público que o acompanha e conhece o seu trabalho, é impossível separar o homem do artista. Paulo Flores explica-nos como ele próprio vê esta separação:

“Toda a minha música expressa as minhas mais profundas preocupações, emoções e expetativas. Sou e estou sempre eu espelhado naquilo que faço e é por isso que neste momento já é indissociável a pessoa que sou do músico que sou.”

Apesar do reconhecimento inegável que tem pela sua carreira, não deixa de se surpreender com a forma como o público se identifica com as suas letras.

“No início da minha carreira, a minha ideia era conseguir, depois de 15 ou 20 anos, ser alguém respeitado por ter tentado fazer na música e na arte a sua verdade. Sempre expus as minhas dúvidas, e os meus sentimentos mais íntimos, e não sabia se ia conseguir fazer isso sem me transformar a mim próprio”, conta.
Tendo lançado o seu primeiro álbum aos 16 anos, e o último, prestes a sair aos 43 anos, Paulo Flores considera todos os seus álbuns igualmente marcantes ainda que de formas diferentes.

O seu primeiro disco foi muito importante por ser feito com o apoio do pai, ser gravado na Rádio Nacional de Angola em 5 dias com amigos e ter marcado o seu debut no mundo musical.

Conta que no início compunha de forma mais instintiva e impulsiva, mas que conforme foi amadurecendo musicalmente, passou a abordar as suas composições com outra sensibilidade e atenção, ainda que a paixão, essa sim, se mantenha inalterada.

Depois dos cinco primeiros discos mais dedicados à kizomba, em 1994/95 lança o “Canta Meu Semba”, que marca a sua incursão pelo Semba, e onde está presente o trabalho que faz com os “mais velhos” para criar algo genuíno.

Surgem novas abordagens rítmicas, novas construções poéticas e melódicas e faz uma viagem à infância e a um período marcante no seu crescimento pessoal e musical.

“O meu pai tinha milhares de discos. Eu ouvia música sul-americana, dos Estados Unidos, do Brasil, e é curioso que a minha grande educação musical aconteça precisamente nesses 3 meses de férias passados em Luanda, no Bairro dos Coqueiros.”

O reflexo desta ida ao baú de memórias musicais espelha-se na criação dos álbuns Xê Povo e da trilogia Ex Combatentes.

Entre os vários álbuns há musicas que se tornaram marcantes, quase históricas no seu reportório, “Cherry” é um dos clássicos que Paulo se vê continuamente a cantar em palco. Se durante algum tempo o incomodou perceber que o público não se desligava de músicas mais antigas, logo compreendeu que esses “pedidos” eram o reflexo de uma ligação emocional profunda que o seu público tinha criado com o seu trabalho, ligação essa que foi sempre um dos propósitos do seu trabalho.

Considerado um embaixador do Semba, ou mesmo o Rei do Semba, Paulo Flores não se atrapalha quando perguntamos como se sente com este “título”. Acredita que sim, que tem sido um embaixador através da sua música, pois tem sido ela a abrir as portas para um diálogo musical entre os mais velhos e os mais novos. A sua pesquisa às origines do Semba, o trabalho de perto com quem o viu nascer e crescer, permitiu que Paulo Flores desse nova vida a um estilo musical que tinha caído no esquecimento. Foi este ato consciente de recuperação da herança musical e histórica do país, que contribuiu não só para uma divulgação maior da riqueza da música angolana e das suas influências, mas para um acordar das origens.

O seu álbum de 2001, o Quintal do Semba, que não se limita às temáticas clássicas, aproxima-se das pessoas com temas do dia-a-dia e chega assim mais perto dos jovens.

Com o último álbum prestes a sair, Paulo Flores, professo defensor de que é mais fácil passar a mensagem se a música for dançante, canta temas do presente, abordando temáticas mais sensíveis da Angola dos dias de hoje tal como a vê.

“Este álbum tem semba e tem uma kizomba mais old school. É um álbum com uma energia bem mais dançante do que os últimos trabalhos, para que as pessoas possam ir percebendo a mensagem e possam refletir sobre ela ao mesmo tempo que dançam.”

Paulo Flores canta ainda um pouco em Quimbundo em homenagem às origens, para não deixar cair no esquecimento o tanto que é Angola. Porém, admite que sem a ajuda da sua avó, já falecida, se torna difícil construir musicas inteiras em Quimbundo.

Aos 43 anos, com vários álbuns lançados e muitos espetáculos um pouco por todo o mundo, prestes a lançar o seu novo álbum, Bolo de Aniversário, a carreira de Paulo Flores vai “de vento em popa”, com uma melodia e um ritmo que cria a arte com que muitos se identificam.

“Nunca pensei que as pessoas se fossem rever tanto naquilo que eu escrevo, porque muitas vezes é um desabafo de uma dor profunda, de sentimentos meus e nunca entendi como é que se podiam relacionar com aquilo. Porém, durante os anos foram as pessoas a ensinar-me a compreender melhor o que eu tinha escrito. Foi assim que percebi que criei com o meu público um outro nível de comunicação e de diálogo.”

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