De jeito doce e afável, como a sua voz que toca no coração e entra no corpo de quem não resiste aos ritmos do semba, Paulo Flores recebeu o NG nos estúdios de gravação, em Lisboa, antes dos ensaios para os concertos que assinalam os 25 anos de carreira, na Casa da Música, no Porto, e no CCB, em Lisboa. Numa conversa que prometia ser rápida e se tornou solta, um dos pioneiros da kizomba e recriador do semba partilhou as memórias, a relação que mantém com Angola, o país que ama, mas onde receia que se esteja a perder a cultura. Paulo Flores acredita que “as pessoas precisam de mais informação, educação e cultura”. Depois dos concertos em Portugal, Paulo Flores vai em  digressão pela Noruega, Canadá e EUA. Em Julho e Dezembro, prevê voltar subir aos palcos de Luanda.

Ser um dos grandes nomes da música, ao lado de Waldemar Bastos, Rui Mingas, Bonga, é uma grande responsabilidade, em especial quando só se tem 42 anos. Como é que se chega aqui?

É um pouco assustador apresentado dessa maneira. Se calhar porque não tenho isso presente. Mas também é natural porque eles eram as pessoas que eu procurava imitar nos primeiros discos. Como é que ia fazer música de Angola? Tentava, mas sem a certeza de ter essa capacidade. Quando comecei a cantar, nunca imaginei que as pessoas se fossem identificar com o que criava. O que escrevia era o que sentia, pela revolta dos momentos que marcaram a minha infância, viver entre Portugal e Angola. Vim com a minha mãe para Portugal com três anos. O meu pai ficou em Angola, onde sempre regressei. Quando chegava a Angola reparava muito nos paradoxos da sociedade. As pessoas eram muito generosas, partilhavam muito as coisas, mas ao mesmo tempo era uma sociedade muito cruel que era capaz de nos impedir de ouvir música porque havia luto. Tudo aquilo me fazia muita confusão, enquanto criança. E depois quando chegava a Portugal, as pessoas falavam das saudades de Angola. Ao mesmo tempo, tinha uma avó que dizia que não devia de ir, que era perigoso. “Aquilo está muito mal e ainda te vão matar”. Com as referências que o meu pai e os meus avós me transmitiam e com o que ia ouvindo, comecei a compor as minhas músicas e a gravar, a maior parte dos discos na RNA. Agora, compreendo melhor o contexto daquilo que fiz. O que, para mim, era um desabafo de algo inconsciente que sentia, para as pessoas funcionava quase como um grito de alerta. Era algo poderoso, mas eu, na altura, não tinha ainda noção. As pessoas deram-me tudo de volta. Estes 25 anos são uma celebração que tem que ver com a partilha e com o agradecimento profundo.

O seu pai, Cabé, sempre esteve ligado à música e à cultura. Sem essa influência teria existido?

Não sei, mas seria com certeza diferente. Ele foi muito incentivador e sempre acreditou que ia ser um grande cantor. Depois, foi o meu primeiro agente, esteve sempre comigo e organizou espectáculos. Até deve ter comprado discos que ninguém comparava (risos). Estava sempre muito presente e influenciou-me na forma de encarar a vida. Em Angola, era DJ e sempre reunia muita gente. Em 1986, veio para Lisboa e abriu as primeiras casas angolanas, onde se juntavam muitas pessoas que viviam em Angola e as que estavam em Lisboa. Toda a sua alegria e forma de contar histórias foram contagiantes, principalmente, porque eu era muito tímido e, de repente, o primeiro disco começou a ter muito sucesso e fui para o palco quase empurrado.

Passa grande parte do tempo longe. Como é viver entre Angola e Portugal?

Muito conflituoso. É uma relação de amor, como a mãe e um filho. O amor ao lugar é algo muito forte e, às vezes, parece que nem se resume a um espaço físico. Preocupa-me perceber que posso amar um lugar que pode perder todas as referências. É difícil encontrar uma Angola que tenha uma identidade comum, em que todas as pessoas se identifiquem – além da equipa de basquetebol e de futebol. Falta-nos isso: história e referências para falarmos de tudo sem complexos e seguir em frente. A minha música e a minha arte têm de ter uma utilidade: a de criar um mundo, um lugar melhor, que é Angola. Às vezes, olho e sinto que tenho de ter a capacidade de pôr os nossos jovens a sonhar. Os nossos jovens precisam mesmo de continuar a sonhar.

Como foi o reencontro?

Quando comecei no semba, senti necessidade de ir para Angola. Passava aí sete a oito meses por ano até que acabei por me mudar. Fiquei de 1999 até 2012. Agora, com o projecto do restaurante, passo mais tempo em Lisboa, mas sempre com a ponte Luanda-Lisboa. Durante os 12 anos que estive em Luanda a viver, foi uma outra aprendizagem. Por vezes, contava histórias de coisas que não tinha vivido e acabei por perceber melhor as minhas próprias letras.

Tem sido muito crítico da situação política? Está mais optimista?

Existe a oportunidade única de continuar a construir porque temos o grande valor da generosidade, da capacidade e vontade de aprender. Está nas nossas mãos dar-lhes informação para mudarem estruturalmente a nossa sociedade. Sinto que os jovens estão ávidos por conhecimento, informação e cultura para seguirem em frente e sonharem com dias melhores. Só que até para absorver cultura temos de estar preparados e, em Angola, há criadores que não lêem. Vou escrever um livro, mas nunca li um. Não me parece o caminho certo.

Quando abriu o restaurante ‘Poema do Semba’, em Lisboa, não pensou em Luanda?

Pensei, claro. Ainda tenho o sonho de abrir, mas o metro quadrado em Luanda é a um preço mais elevado. Este espaço também me permite fazer uma espécie de tubo de ensaio. Fora de Angola, existe muita gente que ama o país e que precisa de um lugar para se encontrar e ter essa memória. Em Lisboa, temos a capacidade de ensaiar esta ideia, embora tenha a questão hoteleira, que é a mais complicada e dá, de facto, muito trabalho.

Como embaixador da Boa Vontade, sente-se impotente em relação às diferenças sociais?

Sobretudo, quando surgem teorias de que temos de criar milionários. Tenho uma ideia sobre isso, mas julgo que a minha música ‘A Carta (Querida Mãe)’ retrata tudo. Vivi 12 ou 13 anos em Angola. Pediram-me muitas entrevistas e senti, a determinada altura, que queriam que dissesse as coisas que não era a mim que competia dizer. Escrevi a música porque era inútil dar a minha opinião e está bem expresso o quanto isso me magoa. Não sei cantar sem estar a sentir. Cada vez que estou a dizer aquelas palavras, continua a pesar em mim e magoam-me muito.

Como tem colaborado com jovens músicos?

É a forma de me darem “sangue”. A geração mais nova tem uma forma de estar incrível. Acreditam em tudo e são extremamente inspiradores. Também me tratam muito bem e sou muito bem recebido. É como se recebesse a fonte da juventude. Olho para eles e vejo como eu era no início. Estamos no estúdio, fazemos uma música e gritamos: “Grande música!”. Festejamos aquele momento como se fosse o maior feito das nossas vidas.
.
Quais são os jovens músicos em que acredita?

Há muita gente com talento, mas o mundo hoje não é só Angola. O país também já é globalizado, o que nos tornou demasiado iguais para nos respeitarmos. Sinto falta de ir a um lugar onde só ali é que existe aquela realidade. Por estarem a promover mais a figura pública do que o talento, temo que muita gente se vá perder com a ilusão do aplauso falso e das primeiras capas das revistas. Vou falar daqueles que considero que já superaram essa fase e que não irão desaparecer. Além de Anselmo Ralph, Yuri da Cunha e C4 Pedro, juntamente com Ari e Yola Semedo, que têm um talento incrível e são os músicos com mais peso e público neste momento, temos outros que não são muito referidos, mas igualmente talentosos, como Toty Sa’Med, Aline Frazão, Gari Sinedima e Irina Vasconcelos. Têm uma estética própria e uma mensagem verdadeira.

Como idealiza os 50 anos de carreira?

Gostava de conseguir pôr toda Angola a tocar o semba. Não me estou a imaginar a tocar daqui a 25 anos profissionalmente. É muito exigente e não quero ficar velho em cima do palco. Mas gostava que os jovens criadores da altura, os meus netos, por exemplo, me mostrassem um ‘show’ em que percebesse que receberam toda a mensagem da história de Angola recente e que, para eles, essa informação marcou toda a diferença, tal como a geração do meu pai fez para mim. Aliás, tentei perpetuar no álbum ‘O País que Nasceu Meu Pai’, de 2013, que começa com uma carta minha para os meus tetranetos. É por isso que tenho de continuar a acreditar.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.