Começou a cantar com a mítica banda cabo-verdiana Splash. Tinha na altura apenas 19 anos. Hoje conta com uma produtora própria, oito álbuns no mercado e vários sucessos nesta caminhada de cerca de 20 anos.

A residir nos EUA há cerca de três anos, Denis Graça, que se encontrava a fazer shows em Cabo Verde a convite da Passa Sabi Eventos, é um nome incontornável quando se fala de cabozouk e não kizomba, como ele próprio gosta de frisar.

A completar 20 anos de carreira, Denis Graça diz que “o tempo passou depressa” e recorda como tudo começou com os Splash, na altura era ainda um rapaz de 19 anos. Hoje conta com oito álbuns no mercado, uma produtora própria – DG Records, que criou em 2008, e vários sucessos pelo caminho.

Emigrou para a Holanda aos nove anos e começou a cantar com os Splash em 1998. Na altura, recorda, os tempos eram outros. Se por um lado, iam atuar na Brava e ficavam hospedados em casa de pessoas conhecidas, por outro eram recebidos em apoteóse pelos jornalistas e público no aeroporto, por exemplo.

“Se pudesse voltar atrás, no início da minha carreira dedicar-me-ia mais a Cabo Verde”, confessa o artista.

“Como era muito jovem, estando num grupo como o Splash, onde tínhamos todas as portas abertas, não prestei muita atenção e não pensei que um dia poderia sair dos Splash e teria de ‘andar pelo meu próprio pé’”, afirma em retrospetiva.

Lançou o seu primeiro álbum “Sonhos”, em 2001, trabalho do qual faz parte o single “Amor à primeira vista” que teve enorme sucesso e esteve no TOP em vários PALOP durante seis meses seguidos. Diz que o tema é, até hoje, dos mais solicitados nos concertos.

Entretanto, quando lança o segundo álbum “Hoje é bo noite”, em 2006, já num mercado mais concorrencial, o retorno não foi o mesmo. “Não fiz o meu trabalho de casa, não fiquei com contactos e estava sozinho no mercado. Pensei que o meu segundo álbum tivesse o mesmo impacto que o primeiro, mas não. Não teve nem 10 por cento da notoriedade do primeiro CD. Hoje, quando olho para trás, sei que tive um bocado de culpa nisso”.

Na altura, ficou um pouco decepcionado com a recepção do álbum e ressentido com o público de Cabo Verde. “Tinha vários espectáculos agendados fora do país, disse: “Em Cabo Verde, não me chamam (para atuar), então também não vou”. Hoje sei que foi um erro porque nunca deves estar de costas voltadas para a terra que te viu nascer. Hoje não o faria”.

O hit “Já bo cre mas”

Anos mais tarde, e já depois de lançar mais dois álbuns, Denis Graça lançou, em 2011, um single que automaticamente se tornou viral – “Já bo cre mas”. O tema valeu-lhe, em 2012, nomeações para os Cabo Verde Music Awards (CVMA) uma das quais para Música do Ano.

Denis Graça
O jovem cantor cabo-verdiano encanta em todo o lado onde passa

O single, um afrohouse, foge ao que, tradicionalmente, Denis habituou os fãs. “Quem me conhece sabe que a minha inspiração é o amor e coisas que já vivi ou pessoas próximas de mim já viveram”.

Recorda que o tema surgiu numa brincadeira com um amigo que o desafiou a compôr uma música fora do seu registo habitual. O cantor aceitou o desafio e lançou um tema “que depressa ficou no ouvido”.

Apesar de ter sido escolhido por um júri, Denis recebeu várias críticas depois de “Já bo cre mas” ter sido nomeado para a Música do Ano. A música acabou por não vencer nessa categoria, mas sim de Melhor Afrohouse.

“Tinha a certeza que ia vencer (a Música do Ano), já tinha o discurso preparado no casaco (risos). Salvo erro, quem ganhou foi Mirri Lobo, mas ele tinha lançado a sua música (Incomenda d’Terra) já no final do ano, ou seja, o tema não ‘bateu’ o ano inteiro como foi o caso da minha música. Tiro o chapéu para o Mirri Lobo, que é um grande senhor da música (de Cabo Verde) que admiro muito, inclusive, dancei essa música com a minha mãe no meu casamento,  mas se olharmos para o ano por inteiro, a minha música merecia ganhar”.

Sobre os prémios da música cabo-verdiana, CVMA, são “uma grande iniciativa”, mas que deve ser trabalhada de melhor forma. Uma das maiores críticas de Denis vai para o facto de terem alterado a categoria de “Cabo zouk/Cabo love” para “Kizomba”, uma designação que, no seu entender, não é correta nem se aplica ao estilo musical em causa, até porque, defende, é suposto os CVMA representarem a música de Cabo Verde.

A opinião de Denis Graça sobre a designação relativa ao género musical cantado tanto por ele, como por outros músicos cabo-verdianos, já fez correr alguma tinta, entre palavras de apoio e elogios, mas também de críticas. O que levou o artista a redigir uma carta, juntamente com o pai,  disponibilizada nas redes sociais com a argumentação sobre este tema.

Mudança para o digital

O último trabalho de Denis Graça, que também toca piano e guitarra, intitula-se “Sem Fronteiras” e foi lançado em 2017 num formato ainda pouco comum em Cabo Verde – uma pen drive, com músicas e fotos, em formato de cartão.

Denis Graça
Denis Graça - Capa do álbum Sem Froenteiras

Se por um lado, conseguiu vender as cerca de 700 unidades produzidas durante os shows que tem feito desde então, em Cabo Verde este formato ainda não conquistou o público.

“Fazer um CD, hoje em dia,  já não é uma boa ideia”, defende o artista e acrescenta: “A partir de 2018, já não vou lançar CDs, apenas singles”.

“As pesssoas têm mais tempo para consumir cada single, aprender as letras (…) Em vez de, dois em dois anos, lançar um CD, podes a cada três, quatro meses lançar um single. Continuas relevante no mercado e tens sempre novidades”, argumenta Denis e dá o exemplo dos seus mais recentes singles como: “Conta ma Mi” e “Tudo pa bo”, ambos com milhares de visualizações no Youtube.

Uma opção que justifica também com o facto de que a maioria das lojas de CDs já não existe e mesmo os carros (mais modernos), por exemplo, já não têm entradas para esse tipo de formato.

Sucesso de “Tudo pa Bo” e novos trabalhos

Como planeado, em abril deste ano, Denis lançou um novo single – “Tudo pa Bo”, cuja “aceitação está a ser incrível, acima do esperado”. Ainda para 2018, espera, se tudo correr bem, lançar mais quatro singles, com os respetivos vídeos, cujo custo de produção, salienta, tem diminuido, tornando-se relativamente acessível.

Salienta que o género musical que interpreta está em alta, mas levanta a questão da saturação do mercado musical. “Em Portugal, por exemplo, já não há público, já que todos ou são RP (Relações Públicas), ou promotores, ou DJs, ou cantores”.

Com tanta oferta no mercado, que nem sempre é de qualidade, no entender do músico, o valor do caché dos artistas diminuiu drasticamente e os proprietários das casas de música, que nem sempre conhecem os artistas, acabam por optar por “ofertas mais económicas”.

Denis Graça argumenta que é sempre necessário optar pela qualidade. “Não se pode comparar um cantor que apareceu “ontem” com outro que já tem ‘bagagem’ e canta há vários anos”.

Com várias propostas de trabalho na Europa, Denis Graça quer apostar mais em shows com a sua banda, formada por músicos de origem cabo-verdiana (da ilha do Fogo) e acarinha o sonho de trazer os músicos ao arquipélago.

Denis Graça

Discografia

“Sonhos” (2001), que inclui o sucesso "Amor à primeira vista", “Hoje é bo noite” (2006),"DG, The album" (2008), “Addicted” (2010), Projeto "The African Movement" , do qual fez parte o single "Já Bo Cré Mas" (2011), “Collectors Item” (2012), “Self Made” (2014) , EP "Aquarius" (2015) e “Sem Fronteiras” (2017).