A aproximação estilística desta obra está próxima dos dramas familiares dos anos 50 e 70. A minissérie é fértil em emoções viscerais, é uma tragédia em três atos com um enredo operático desenrolado durante a Grande Depressão em Los Angeles. É um mundo dominado pela presença feminina, as mulheres são fortes e empreendedoras, os homens são fracos e consumidos pelos vícios mesquinhos. A ação inicia-se em 1931, acompanhamos a ascensão e a independência de uma mulher que transforma o trabalho em sucesso e está disposta a abdicar os seus sonhos em prol dos sonhos da filha.

As interpretações

A minissérie conta nos principais papéis com três interpretações sublimes. Kate Winslet interpreta a protagonista Mildred Pierce uma personagem presa entre duas realidades. O seu desempenho é físico e emocional, a sua determinação, a tradução do seu amor e a presença carregada de sensualidade fazem deste desempenho um símbolo na sua carreira.

Guy Pearce encarna Monty Beragon, um milionário apanhado pela crise que encontra um porto de abrigo junto de Mildred, uma figura cheia de clichés que o ator tornou genuíno.

A fechar o triângulo afetivo está Evan Rachel Wood, que interpreta um papel resolutivo - a fase adulta de Veda (a filha de Mildred circa 1939). Veda é mais subtil do que mãe, a sua pele de porcelana esconde um ressentimento e anseia pela mudança de classe, despreza Mildred e as suas origens sociais. As suas aspirações são levadas ao extremo, são venenosas e distorcidas, é uma personagem que deseja renascer. Uma aspirante pianista que se torna numa coloratura soprano, é “um gato persa azul”, uma magnífica estrela da ópera mas é viperinas no modo como seduz as pessoas. Uma performance imbatível de Evan Rachael Wood.

A par destes desempenhos é impossível não referir alguns nomes que se destacam do ensemble, casos de Brían F. O'Byrne, Melissa Leo, James LeGros e Morgan Turner (Veda em criança).

A produção

Os técnicos envolvidos nesta minissérie constituem uma equipa experiente que facilitou e possibilitou a concretização de uma produção invejável com um orçamento reduzido. Realizou-se um número de magia na recriação de Los Angeles nos anos 30 com o designer Mark Friedberg, os sets estão apinhados de detalhes. O figurino de Ann Roth conta uma história, a montagem é deliciosa em transições com criatividade, a fotografia de Edward Lachman tem uma profundidade no olhar e a sofisticada música de Carter Burwell faz-nos viajar no tempo sem perder a noção de onde estamos.

A génese

O projeto nasce após Jon Raymond ter lido o livro de James M. Cain e ter sugerido a adaptação a Todd Haynes. As diferenças para a adaptação cinematográfica de 1945 residem no facto desta estar mais próxima do livro, especialmente no desenvolvimento do terceiro ato através da personagem Veda.

Kate Winslet foi a primeira e única escolha para o papel de Mildred e o apoio de John Wells (o produtor) foi fundamental na abertura de uma janela de oportunidade na HBO apesar do orçamento reduzido da série.

Todd Haynes trabalhou com uma equipa estável e rotinada, praticamente a mesma de «Longe do Paraíso» (2002), Long Island como palco para a recriação da cidade de Los Angeles nos anos 30.

As opções estilísticas, como as transições na montagem, permitiram uma economia narrativa. A utilização do 16MM, ao invés das câmaras de HD, possibilitou a obtenção de um desejado realismo.

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